sábado, 1 de março de 2025

O conflito regional do Kivu (República Democrática do Congo)

 

Em finais de 2018, quando criei o blog, o meu foco principal, e durante muito tempo, foi a República Democrática do Congo. Entre 2018 e 2019 acompanhei com grande preocupação a transição de poder entre Joseph Kabila e Félix Tshisekedi, e pontualmente escrevi artigos sobre alguns focos de instabilidade, desde logo no Kasai e no Ituri. Mas propositadamente ficou por analisar aquele que é provavelmente o conflito de maior dimensão e mais impactante na República Democrática do Congo: o Kivu, sobretudo os territórios de Masisi, Rutshuru e Walikale.

Assumindo desde já uma tarefa difícil de tentar simplificar um conflito com origens desconhecidas, mas que assumiu particulares proporções cruéis desde 1998, é chegada a hora de assumir o risco e tentar falar aqui no blog um pouco sobre o Kivu.


Kivu, nome da região, é oriundo do nome do lago vulcânico que marca a fronteira da República Democrática do Congo com o Ruanda, sendo um dos chamados “Grandes Lagos” em Africa, juntamente com o lago Vitória, na zona do Uganda, bem como do lago Tanganica, entre o Congo, o Burundi e a Tanzânia.

A legitimidade histórica sobre a povoação originária do Kivu (aquando da chegada dos belgas nos finais do século XIX), é discutível: alias, muitas das milícias que operam na região argumentam serem os verdadeiros representantes dos nativos da região, que aquando a chegada dos europeus viviam entre um conjunto de tradições e estruturas que, não sendo réplicas, diria que na ótica de um europeu faziam lembrar a Europa medieval, com várias entidades diferentes, alianças regionais diferentes e feudos complexos. Há, contudo, evidências históricas que a região era cobiçada pelos vários reinos centro africanos, atraídos pela sua tardia exploração agrícola e pelo seu subsolo. Existem até historiadores que consideram que os pesos das etnias, em função das várias vassalagens, cultos e seitas da região, assumiram maiores proporções a partido do momento da colonização belga, havendo registo de significativas mudanças no equilíbrio de poder na região (sobretudo na primeira metade do século XX), com a promoção da colonização do território de pessoas oriundas zonas diferentes (desde logo, pela chegada de muitos trabalhadores da região onde hoje é o Ruanda), alternando conforme conveniências políticas a classe dominante da região.

O período da colonização belga e o período pós-independência em 1960 trouxe uma diferença muito significativa na região e a entrada de novos atores: se os belgas administravam o Kivu baseados num sistema descentralizado, atendendo ao enorme mosaico cultural do país, o governo de Leopoldville (mais tarde rebatizada de Kinshasa) procurou de todas as formas uma administração do território centralizada, dando um contexto perfeito para a destabilização da região.

Os anos de Mobutu foram um misto da solução belga e da solução pós-independência: se inicialmente administrou o território via as elites locais instaladas, mais tarde procurou, em função do seu enorme apetite, centralizar para si e para a sua elite mais próxima de Kinshasa.

Foi neste contexto que eclodiram as duas guerras do Congo nos anos 90 (que tive oportunidade de analisar com mais detalhe aqui), sendo que chamo a particular atenção para a sua terceira e quarta fases (sensivelmente a partir de 1999): nem o Ruanda conseguia capturar Kinshasa e derrubar Laurent Kabila, nem Kabila e os seus aliados africanos tinham capacidade militar para expulsar as tropas estrangeiras inimigas. E desde então os exercícios dividiram-se e subdividiram-se em várias milícias, com fins diferentes e cada qual com a sua “legitimidade própria” e aquela que era uma guerra política transformou-se numa guerra económica, a qual perdura até aos dias de hoje: estando numa região vasta, com pouca infraestrutura e com uma enormíssima riqueza natural, o Kivu tornou-se na zona por excelência para senhores da guerra e agentes estrangeiros de todo o mundo, cada qual interessado em extrair para si uma fatia da enorme riqueza mineral do país, extraída num esquema de cumplicidade entre diversos agentes locais e uma comunidade internacional “esfomeada” pelos preciosos recursos da região.


A “paz jurídica” assinada nos acordos de Sun City (que oficialmente terminaram a segunda guerra do Congo em 2003) nunca trouxe a paz à região, que tem visto ao longo dos anos a um enorme escalar de violência, com a presença de uma dispendiosa missão de paz da ONU (MONUSCO), bem como a entrada e formação de novos grupos rebeldes (de destacar o M23, um misto de desertores do exército congolês e apoiados pelo Ruanda). Paralelamente, até aos dias de hoje, a região do Kivu tem também sofrido da instabilidade nos países vizinhos, assistido à entrada de novos agentes nesta guerra de facto, desde milícias Hutus e Tutsis dos vizinhos Ruanda e Burundi, até à chegada de membros islamitas do Estado Islâmico, com presença no Uganda.

O Kivu é uma região fundamental no mundo, essencial para a indústria eletrónica e da transição energética, desde logo por conter as maiores reservas mundiais de coltan e cassiterite, minérios essenciais para as baterias dos aparelhos eletrónicos (com capital importância nos transportes, aparelhos informáticos e aparelhos de telecomunicações). A região possui ainda enormes jazidos de ouro, diamantes, cobre, ferro, terras raras e, conforme notícias mais recentes, foram descobertas significativas reservas de petróleo no lago. Tudo isto numa região que vive há muitos anos o fenómeno das crianças soldado, violência sexual e indiscriminadas violações dos Direitos Humanos, trouxe um dramático custo para a região, que já contabiliza milhões de mortos. Segundo dados recentes, atualmente estão deslocados das suas casas no Kivu cerca de 3 milhões de pessoas, numa situação humanitária deveras catastrófica.

Uma imagem com ar livre, céu, Bairro degradado, tenda

Os conteúdos gerados por IA poderão estar incorretos.

Chegado a este ponto, quero terminar o artigo colocando ao leitor as seguintes questões:

- Estamos prontos para discutir verdadeiramente as questões da origem dos racismos e diferenças étnicas?

-Estamos dispostos a repensar a economia internacional para uma economia que garanta conforto ao mesmo tempo que é socialmente responsável?

- Estamos dispostos a repensar as várias estratégias para o desenvolvimento sustentável e transição energética, sem que isso acarrete um terrível custo humanitário?

- Estamos dispostos a exigir um maior escrutínio local e internacional de um conflito que impacta o nosso dia-a-dia?

- Estamos dispostos a repensar a nossa atuação cívica, pensando e repensando localmente problemas globais complexos?  

No centro de tudo isto, que creio serem os temas nucleares do século XXI e decisivos para o futuro da humanidade, está o Congo e a região do Kivu, que continuo a acompanhar com preocupação.


domingo, 20 de outubro de 2024

O Clérigo e o julgamento da espécie (2024), de Leopoldo Guimarães.

 

 

«Reflexões final de dia», já lá vai algum tempo desde que aqui escrevo.

Voltei aqui por dois motivos: no campo profissional muito recentemente vi-me confrontado com as possibilidades e usos das ferramentas de inteligência artificial, que prometem trazer grandes alterações para os vários setores do mercado, nomeadamente ao setor financeiro. Desiluda-se quem leu Orwell e sobretudo Huxley, quem achou que os cenários distópicos traçados pelos autores iriam demover o progresso científico. Está aqui, e está para ficar.

Voltei aqui, também porque no campo pessoal, apesar de tentar manter o meu ritmo de leituras, por sentir que este seria o momento de me aventurar num autor que não conhecia. Diversas vezes, em canais de cultura e entretenimento mais alternativo tenho descoberto conteúdo de imensa qualidade, que por vários motivos passa mais despercebido. Por isso achei que neste contexto pessoal não seria mal pensado dar uma chance de explorar algo novo. Procurei, por isso, um livro diferente, algo atual, de leitura fácil, rápida e impactante. Esta obra, sem dúvida que me conseguiu prender e mergulhar em pensamentos.

Como ponto preliminar, devo dizer, contrariamente ao que se possa pensar, que a tecnologia de ponta não é algo reservado a vídeos ou reels que vemos das modernas técnicas da robótica e computação, associadas a Silicon Valley ou às modernas cidades de Tóquio, Seul ou Singapura. O livro teve a subtileza de clarificar isso mesmo.

A história aparece centrada na figura do padre Eugénio, membro do clero sábio e responsável por uma pequena paróquia numa aldeia na Beira Alta. Intercala eficazmente entre o tradicional, a religião como centro cultural e espiritual dos meios mais remotos de Portugal, com as problemáticas da atualidade: a situação político económica portuguesa (desde logo a incapacidade de solução dos problemas do dia-a-dia das pessoas, que leva a uma afastamento generalizado e descrença do eleitorado aos atuais políticos), a situação dos jovens (dramas, alegrias e tristezas de quem está prestes a chegar à idade adulta e enfrentar os problemas como tal), as dificuldades financeiras e pessoais, principalmente de quem procura, em qualquer coisa, alguma forma de combater a solidão (seja no dinheiro, na fé ou no estatuto). Mas mais por mais, o livro acaba por ir ao ponto mais profundo e que acaba por unir todas estas temáticas: o papel da humanidade e da pessoa (quer individualmente considerada, quer como parte de uma comunidade), face a Deus, ao passado, à ciência, à política, e ao futuro.

O tema da religião é um assunto muito sensível, que tenho o cuidado de não tornar demasiado pessoal aqui no blog. Como defensor do respeito e da liberdade religiosa, não poderia ser de outra forma. Mas este livro, numa perspetiva própria e até suficientemente rica para chamar a atenção de crentes e não crentes, levou-me a chegar a conclusões interessantes que não resisto em partilhar: independentemente da posição que se possa ter sobre a religião e a existência/negação/possibilidade da existência de Deus, a questão milenar, que afetou sábios e escolares do ocidente ao oriente (desde os primórdios das religiões abraâmicas até às escolas budistas e confucionistas no extremo oriente), e que afetou culturas de todas as geografias mantem-se: o que é que nós somos? Quem nós somos na relação com o mundo? O que nós somos olhando para o infinito e as profundezas da condição humana?

A inteligência artificial, nesta fase da História, nesta fase do século XXI, nesta fase do desenvolvimento tecnológico, acabou por agitar estas questões milenares, adicionando uma nova componente a todo este debate. Estaremos nós no estado em que já temos conhecimento tal de nós próprios que podemos dar ao luxo de arriscar o passo derradeiro, que já demos, da nova tecnologia?

O livro, contudo, não se esgota em aspetos tecnológicos: considera os vários personagens em torno do padre Eugénio e frequentadores do café do Alberto, como pessoas diferentes da máquina científico-informática ao demonstrar que ainda temos muito para descobrir. Tanto no campo da neurociência como no campo da psicologia, o ser humano ainda não chegou ao ponto em que o conhecimento científico permite descobrir tudo sobre nós mesmos. Isso fica evidenciado na obra, sobretudo em torno de Adélia, a jovem universitária insólita e com atitude muito própria.

Sendo jurista, e por isso inepto para uma discussão mais técnica das questões lançadas, sinto que a questão da inteligência artificial pode ser colocada de moldes semelhantes a uma discussão que afetou a minha geração sobre a Internet. É difícil chegar a uma conclusão perentória sobre se este tipo de tecnologias é bom ou mau… Provavelmente estará numa zona cinzenta, sobre a qual muitas outras pessoas estarão mais aptas que eu para dissertar. Devo, contudo, dizer, que o que retiro do livro é que, não obstante as potencialidades e abertura de todo o novo mundo de possibilidades que o progresso científico possa levar, não devemos nós, cada um e como parte deste mundo, desistir de tentar aprofundar e melhorar a nós mesmos. Talvez isso seja um ideal que possa unir padres e cientistas ou ateus e crentes.

Indo agora a aspetos formais, o livro é escrito por um autor com claro conhecimento académico, embora não possamos considerar este romance como um livro universitário. Procura um equilíbrio entre o conhecimento do ensino superior com a necessidade de tornar o mesmo acessível ou, se se preferir, em democratizar o conhecimento, com as vantagens e desvantagens que dai possam surgir. Se é certo que pode ser, por vezes, um pouco mais pesado que o habitual e do que esperava, não posso dizer que seja o livro difícil, tendo já relido, com muito gosto, várias passagens. Por esse motivo, não posso deixar de recomendar a sua leitura.


terça-feira, 20 de agosto de 2024

Travessuras da Menina Má (2006), Mário Vargas Llosa – Crítica (Ana Luísa Gonçalves)


 

Prólogo: A beleza dos livros e algo que qualquer amante da literatura constata é o impacto que o livro tem no momento da nossa vida em que o estamos a ler. Isso é, aliás, uma grande variável da experiência literária. Outro aspeto é a transversalidade da nossa experiência humana, que podemos sentir de um livro de qualquer escritor de qualquer canto do mundo, até onde nós estamos. Peru, décadas passadas, Alvaiázere, Coimbra, Vila Real, todos nós podemo-nos unir neste magnifico mundo dos livros. É neste contexto que a Ana volta a um blog, com um artigo viciante e que nos deixa com vontade de ler mais textos dela! Sem mais demoras, o artigo (Luís Araújo)

 

Se há coisa que adoro são os livros, e após tantos anos sem entrar numa biblioteca municipal, voltei a fazê-lo com alegria por saber que ali teria um sítio onde sempre me sentiria acompanhada nesta nova etapa da vida. Assim, fiz o meu cartão de leitora e requisitei três livros (ambiciosa, já que o prazo de requisição é de duas semanas). Escusado será dizer que no prazo de duas semanas nem o livro que logo iniciei consegui acabar, quanto mais abrir os outros dois.

Porém, agora cheguei ao fim desse primeiro livro e é sobre ele que versará este artigo.

Já sabem, pelo título, que se trata de “Travessuras da Menina Má” de Mario Vargas Llosa. Comecei por escolher o autor devido ao Nobel que conquistou em 2010 e, de entre os títulos que a biblioteca oferecia, este foi o que mais me cativou.

Embora tenha demorado a “entrar” no livro, uma vez lá dentro confesso que foi com ansiedade que o acabei, sempre desejosa de saber mais dos encontros e desencontros entre a menina má e o menino que considerei para lá de menino bom. Tal como referi, demorei um pouco a deixar-me envolver pelo enredo, que começa no verão de 1950, no Peru e acompanha o desenrolar da história não só peruana, mas também mundial pelas décadas seguintes.

Este livro cativou-me, mas ainda não decidi se adorei ou não, dado que o acabei há poucos minutos. Retrata um amor assolapado, em que o protagonista está apaixonado “como um bezerro”, como o próprio refere. Ricardo apaixona-se intensamente e vive para esse amor, tudo fazendo por ele, mas será essa a forma certa de viver um amor? Não será mais importante, e antes de qualquer outro amor, o amor próprio? Ricardo deixa-se enlevar pela menina má, sucumbindo ao pouco (ou tanto?) que ela lhe oferece, de um modo que a dada altura já me irritava. Mas será sempre assim? Não tomará ele as rédeas da situação em algum momento? Terão de ler para descobrir!

A escrita de Llosa revela atenção aos detalhes e apesar de algumas palavras que acrescentei ao meu léxico conseguimos compreender facilmente esta história algo dramática.

Recomendo a leitura, mas vão preparados para se enervarem!

 

 


domingo, 17 de março de 2024

O Principezinho (versão teatro) - março de 2024 no Parque Mayer (Lisboa)

 



Vou começar este texto com um pequena história: tinha eu 15 anos, estava no início das férias de verão entre o 10º e o 11º ano, e saiu a sequela de um filme da Disney que tinha gostado muito: o Panda do Kung Fu. Por um lado, estava deserto para ver o filme, por outro, no meio daquelas ideias adolescentes e semi paranoia, tinha medo de ser reconhecido a ir ao cinema ver filmes da Disney com aquela idade.

Com o passar dos anos, felizmente, creio que as pessoas tendem a preocupar-se menos com o que os outros pensam e a ser um pouco mais fieis a elas mesmas, ainda que por vezes isso seja muito difícil. O que nos aconteceu ao crescer? Essa, é a pergunta que me fiz imensas vezes enquanto assistia à magnifica interpretação teatral do Principezinho. Num auditório cheio de famílias e crianças de colo, talvez ver lá um adulto solteiro de 28 anos sozinho, possa parecer um pouco estranho. Felizmente para mim, eu não tenho 15 anos, e tudo o que aquela peça me fez sentir merece um artigo no blog.

A peça é uma adaptação do magnifico conto de Antoine de Saint-Exupéry, na minha opinião bastante bem feita. Senti exatamente a mesma experiência que tive quando li o livro pela primeira vez, e honestamente, creio que é um livro que atinge mais um adulto que uma criança. O motivo é muito simples: à medida que o tempo passa, tendemos a esquecer as pequenas coisas que as crianças têm presente, e chega um momento da vida (umas vezes causado por um trauma, outros por necessidade, e muitos pela normal evolução no crescimento) em que sentimos que de um momento para o outro a nossa maneira de pensar mudou, quase como (se me é permitida a metáfora) a voz do consciente que fala connosco tenha mudado. O Principezinho foi uma obra/peça onde voltei a sentir a minha maneira de pensar de criança, e que, em larga medida, sinto saudades. Saint-Exupéry conseguiu fazer isso, algo que não é qualquer filme ou conteúdo infantil consegue, e foi algo que aqueles maravilhosos atores conseguiram transmitir.

Mas falemos também um pouco da história: afinal, o que é que perdemos quando crescemos? Diversas vezes a atriz que interpretava a personagem do Principezinho dizia, após cada planeta visitado que "os adultos são mesmo estranhos". E com razão: perdemos, ao longo do tempo, a criatividade, aquela capacidade de uma criança inventar uma brincadeira ou criar um mundo só com o poder da imaginação. Perdemos a sensibilidade de saber se algo é bonito, e focamos demasiado na etiqueta do preço. Perdemos a capacidade de apreciar as coisas simples da vida. Adquirimos a extrema vaidade, perdemos a racionalidade. E acima de tudo, tornamos os nossos sonhos e objetivos algo de quantificável, em vez de espiritual. Pensemos: uma criança quer ser exploradora? Como é que cresce e descobre que o objetivo dela a partir de agora seja ser, por exemplo, um técnico de contas? Ou um Administrador Financeiro? Para onde foi aquele espírito de curiosidade e aprendizagem?

Outro aspeto que gostei foi o fator criatividade. Com o tempo, ter ideias novas e tentar soluções novas parece cada vez mais difícil, isto porque estamos inseridos num mundo que prega a resignação, e não o espírito crítico. Isso soa familiar? Talvez, porque em larga medida. deixamos de questionar as coisas quando crescemos...

Hoje e sempre, o Principezinho faz-me recordar do que era ser novo, e sentir saudades desses tempos. Numa altura e numa fase da vida em que vivemos constantemente com medo e pessimismo sobre o futuro, o Principezinho faz-nos recordar da inocência da infância e do absurdo que muitas vezes nós os adultos vivemos. Como bem foi escrito e dito no teatro, "as coisas importantes não se vêm com os olhos, mas sentem-se com o coração". E é por isso, que quis hoje, voltar ao blog para falar deste teatro.

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

A Desorganização Organizada: eleições na República Democrática do Congo (dezembro 2023)

 


Começo este ano de 2024 com um tema que os leitores do blog mais antigos certamente se recordam, mas que há algum tempo não vinha ao blog: o Congo. Num ano que vai ser marcado por diversos atos eleitorais por todo o mundo, achei que não fosse má ideia começar o ano por analisar brevemente as eleições de dezembro na República Democrática no Congo.

Como nota preliminar, importa notar que o sistema eleitoral do Congo é bastante peculiar: o presidente é o vencedor da eleição por maioria qualificada e com base na Assembleia Nacional e as várias Assembleias/Órgãos de Poder Local forma o seu governo. Por isso temos logo aqui uma característica: as eleições no Congo misturam, transpondo para a realidade portuguesa, as eleições presidenciais, legislativas e autárquicas, portanto muito está em jogo.

Como outra nota preliminar, mais como natureza de lembrete, o Congo tem um terrível histórico em transições de poder. A eleição de 2018, com toda a instabilidade, confrontos e tensões internas, é tida como a primeira transição pacífica de poder desde a independência do país em 1960. Efetivamente, tendo em conta as restantes transições (em que chefe de Estado em regra fugia para o exílio ou era assassinado), a continuidade do ex presidente Joseph Kabila como senador vitalício foi surpresa, tendo em conta o histórico que o país tem. Foi então com surpresa geral que vimos como vencedor das eleições o atual presidente Félix Tshisekedi assumir as funções como chefe de Estado.

O primeiro mandato do novo presidente teve sinais mistos: marcado pelas tensões com os membros “Kabilistas” no governo e no parlamento, Tshisekedi a ritmo procurou marcar o seu espaço no palco político congolês. Ao mesmo tempo que Tshisekedi procurava o seu espaço, internamente viu a emergência de um novo foco de rebelião no Kivu (sobretudo o movimento rebelde M23) e os islamitas no Ituri, as províncias do cobalto. Isso deu origem a (mais uma) terrível vaga de refugiados, sendo que a ONU contabiliza cerca de 7 milhões de congoleses que vivem em campos de refugiados no leste do país.

No campo económico, o país tem crescido acima da realidade africana, mas os níveis de desenvolvimento são ainda muito reduzidos, tendo em conta a enorme riqueza mineral do país e o baixíssimo nível de vida do povo congolês, um dos mais pobres do mundo. A insatisfação mantém-se nas condições de segurança e, sobretudo, na integridade territorial do país, consecutivamente violada por diversos movimentos rebeldes apoiados por atores de todo o mundo. Ao mesmo tempo, a insatisfação com a missão de paz no país (MONUSCO) demonstra as enormes fragilidades que ainda hoje a ONU tem, sendo que um dos pontos mais sensíveis na política interna congolesa é o da avaliação da saída dos capacetes azuis do Congo, um tema que já abordei.

No que toca ao campo interno, os índices de democracia no país mantiveram-se muito tímidos: sinal disso foi a proibição das manifestações de contestação do ato eleitoral após a divulgação dos primeiros resultados.

É, portanto, neste contexto que cerca de 70 milhões de eleitores foram chamados às urnas, numas eleições que alguns setores da oposição e Igreja Católica caracterizaram como uma desorganização organizada: em virtude da vaga de refugiados e deterioração das condições de segurança, milhões de congoleses não puderam exercer o seu direito de voto. Por outro lado são de destacar imensos problemas logísticos no país na realização do ato eleitoral: a abertura das urnas e assembleias de voto foi muito irregular por todo o país, tendo ocorrido a horas diferentes e dias diferentes, sendo que houve muitos locais onde não chegou a acontecer; milhões de eleitores ficaram excluídos do recenseamento eleitoral pelas condições de conservação dos cartões de eleitores; diversos jornalistas apontam para vícios nas máquinas de votação eletrónica (já usadas nas eleições de 2018), sendo que a oposição apontou para um enorme risco de fraude eleitoral. Neste momento, a comissão eleitoral aponta para uma taxa de participação nas eleições a rondar os 44%, sendo que dos resultados divulgados há uma vantagem esmagadora para a reeleição do atual presidente em números superiores a 70% dos votos.

A democracia congolesa, face ao exposto, mostrou que ainda tem um longo caminho a percorrer: é muito difícil fazer-se um ato eleitoral democrático e livre se há uma gritante falta de infraestrutura, organização, vontade política, recursos financeiros e segurança. Uma democracia faz-se com instituições sólidas, e apesar de saudar que as eleições tivessem sido realizadas nos termos constitucionalmente definidos, receio que outro cenário que não fosse a vitória esmagadora de Tshisekedi estivesse condenada desde início. Resta ver como será o segundo mandato do atual presidente e veremos qual será o seu legado na História da República Democrática do Congo.

Geralmente termino os artigos sobre o Congo num tom pessimista, mas neste artigo quero fazer algo diferente. Apesar de toda a instabilidade do país, há algo verdadeiramente que queria destacar, uma vontade e ativismo político que o povo congolês tem demonstrado. O número de candidatos a estas eleições e o crescente crescimento do ativismo cívico (seja o movimento estudantil “Lucha” ou, o que destaquei na imagem deste artigo, o movimento “o meu voto não está à venda”), são sinais que a cultura democrática começa a instalar no Congo, bem como uma vontade de criação de um futuro diferente do que tem sido toda a história do país. Talvez, a solução para os problemas do Congo já esteja ou já se comece a formar no seu povo, que merece um futuro de paz e prosperidade.

 

 

 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

A Leste do Paraíso (1952) de John Steinbeck – Crítica

 



“O espírito do homem não se pode contentar em viver com o seu tempo, como faz com o corpo.”

Já há algum tempo que tenho visto, lido e ouvido a expressão que fulano tal ou equipa tal está/estão “a Leste do Paraíso”, mas confesso que nunca soube a origem da expressão. O Paraíso é algo que tentamos no nosso modo construir: lembro de tempos de medievais da Respublica Christiana que a Igreja tentou construir; mas também me lembro do século XIX e XX das experiências totalitárias que prometiam uma sociedade nova e um mundo novo. Novo, até muito recentemente, tínhamos como melhor. E de certa forma, ainda o temos.

O título deste magnifico livro surge da referência bíblica dos irmãos Abel e Caim, cuja história do primeiro homicídio ficou marcada na humanidade, tendo Caim, sido expulso do Éden (o Paraíso) para um país a leste. Estar a Leste do Paraíso significa por isso estar fora do Paraíso. Esta história bíblica é alvo de diversas interpretações que, sendo crentes ou não, nenhuma pessoa escapa. Será que devemos alcançar o Paraíso? Será que o Paraíso está fora das nossas possibilidades e estamos condenados? Ou será (como sugere o autor) que podemos alcançar o Paraíso?

O que entendemos por Paraíso? Aquele jardim maravilhoso? O luxo incalculável? Um local e uma vida perfeita, sem preocupações? Estas são as pertinentes questões que Steinbeck nos convida a refletir.

O livro marca duas gerações diferentes de duas famílias: os Hamilton, que têm como figura principal Sam, o irlandês que emigrou para a Califórnia em busca de uma vida melhor; e os Task, centrado na figura de Adam e os seus filhos, marcados pelos traumas de guerra, conflitos familiares, sofrimento e terror, que procuram também na Califórnia (primeiro rural e mais tarde urbana) construir o seu Éden.

O período temporal da história é vasto, compreende desde períodos da Guerra Civil Americana até ao final da Primeira Guerra Mundial. Acompanha um período de aceleração do mundo, de modernização, de progresso, mas também de destruição. Recordo em particular o narrador quando observa a transição do século XIX para o XX, sentindo o que nós sentimos da passagem do século XX para o XXI: uma História acelerada, com esqueletos, traumas, medos e incertezas sobre o futuro. Pelo meio, imensas temáticas foram abordadas: o que dizer da condição social dos primeiros asiáticos que foram para os EUA em condições absolutamente desumanas? O que dizer dos soldados que combateram a Guerra Civil e os Índios, temas esses que ainda hoje geram controvérsia no mundo, mas mais em particular entre os americanos. Mas é na natureza humana que a génese da questão surge: será que merecemos o Éden? Será que o homem é genuinamente bom ou tem uma natural tentação mais forte para a maldade? Ao longo do livro, ao acompanharmos as ações e falas dos personagens (tanto nos idosos como em adultos e crianças) e vamos tendo visões muito diferentes sobre esta questão, ao sentirmos uma sociedade que luta entre os valores conservadores, o trabalho honesto e a procura do seu pequeno espaço, enquanto lida com o desejo íntimo, o desespero, o crime, a prostituição, e a crueldade. É no meio de todo este contexto político, social, religioso, científico e bélico que surgiram os Estados Unidos da América como os conhecemos hoje, cuja principal diferença se calhar da Europa é a de não terem tidos os séculos de história para cimentar todas estas questões, como refere Steinbeck.

“Não sei o que nos reservam os anos que estão para vir. Preparam-se monstruosas transformações, forças extraordinárias que desenham um futuro cujo rosto desconhecemos. Algumas delas parecem-nos perigosas, porque tendem a eliminar o que consideramos bom.”

O que mais retirei da história foi a possibilidade de poder alcançar o Paraíso: diferente do “dever” imposto pelos mais conservadores, e o “abandono” defendido pelos menos crentes. Independentemente da situação em que estamos, a humanidade nunca desistiu de tentar aperfeiçoar-se, por muito mal que as coisas estejam. Certo, aqui e agora quem escreve (eu) e quem lê não consegue responder definitivamente se o humano é bom ou mau, até porque a maioria de nós já vivenciou ambas as faces, tanto o coração derretido como o horror. Eu não estou em posição de responder a estas questões, se o Paraíso se alcança ou se constrói. Mas tal como Steinbeck, acredito que cada um de nós é movido por uma força que se tenta auto aperfeiçoar do nosso modo, e talvez (quem sabe) seja possível caminhar mais para Oeste, em direção ao Éden. Era essa a mensagem que queria terminar esta crítica, recomendado vivamente este magnifico livro.

“No meio de tanta incerteza há uma coisa de que tenho a certeza: sob as mais espessas camadas da sua fragilidade, os homens desejam ser bons e querem ser amados. Se enveredam pelo vício é porque julgam ter tomado por um atalho que os levaria ao amor.”

Antes de terminar o artigo, um pouco na linha do que escrevi no artigo dos Miseráveis e agora que está a terminar 2023, fazer uma retrospetiva sobre o que foi este ano. O A Leste do Paraíso foi o meu décimo quinto livro lido este ano, e talvez por ironia ou destino, sinto que o li na altura e no momento certo. Este foi um ano duro para mim, quem me é mais próximo sabe disso, mas no meio de tanta coisa má que aconteceu, coisas boas vieram: o lançamento do meu primeiro livro, as férias que quis fazer desde pequeno, e o crescimento deste blog. Este ano teve mais artigos e de pessoas diferentes, por isso deixo aqui o meu particular agradecimento à Ana e ao Marco por terem aceite o meu convite de escrever aqui, trazendo gente nova ao blog, conteúdo novo e escrevendo textos que verdadeiramente deram que pensar no final do dia. Escrever e ler é maravilhoso, e espero continuar nesta página com mais artigos, mais pessoas, mais temas e mais conteúdo, criando (se permitirem) o meu pequeno Éden digital. Obrigado.


segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Colorful, (2010) – crítica

 

 



 

Já tenho feito aqui e ali no blog críticas a filmes, o que não é de todo o meu forte. Revi este filme muito recentemente, e ao início partilhei num grupo de Whatsup uma crítica escrita em inglês sobre o Colorful, em substituição de um hipotético artigo meu. Mas após refletir e rever de novo este magnifico filme, as ideias vieram, e como aspirante a escritor que sou, em momentos como este é sempre boa política pegar no lápis ou no computador e escrever o que nos ocorre.

Começo por dizer que a animação japonesa é atirada para um certo “gueto”, muitas vezes injustamente. Houve uma fase da minha vida que consumia imenso, pois tem gêneros e conteúdo para todas as idades, desde as famosas histórias de heróis e sobrenatural até aos chamados “slice of life”, que é a categoria onde Colorful se integra.

 

O filme é focado no adolescente Kobayashi Makoto, que tentou suicidar-se com uma overdose de comprimidos. O primeiro impacto do filme é marcante, quando observamos a cama do hospital ao ver o jovem Makoto acamado, os pais desolados a pensar que perderam o filho, e o irmão mais velho, virado para a parede a dar lhe um soco. Makoto, a quem é dada uma segunda chance na vida, sobrevive e aos poucos vamos aprendendo com o adolescente o contexto da sua vida – ao inicio, retrata uma família feliz, uma casa confortável, uma mãe atenciosa, um pai de bom coração e o irmão academicamente evoluído, mas pouco a pouco vamos acompanhando o que se passou: o pai ausente, focado em demasia o trabalho, a mãe que Makoto viu a trair o pai com o instrutor de flamengo e o irmão mais velho a quem Makoto parece-lhe indiferente, não fazendo esforço de criar relação com ele.

O filme torna-se neste momento pesado: descobrimos que Makoto não tem amigos, é vítima de bullying na escola, tem dificuldades nas aulas e o seu único e grande talento é para o desenho. Neste ponto é interessante constatar a visão de adolescente e a sua relação com a saúde mental: Makoto, como é característico dos adolescentes (e de muitos adultos) tem uma visão estrita e altamente moralista do mundo, e as premissas que se apresentam na sua vida são desoladoras, e aos poucos começamos a sentir o desconforto que Makoto sente consigo mesmo; ao mesmo tempo, sentimos o desconforto que Makoto causa à sua família, cujos esforços de criar uma nova relação com ele parecem ser sempre boicotados pelo adolescente intransigente, chegando até a sentir pena da família, particularmente da mãe.

À medida que o filme vai avançando, a seu ritmo vamos tendo novas cenas da vida escolar e familiar de Makoto que lhe vão possibilitar um enorme crescimento pessoal. Duas cenas são particularmente marcantes: a cena do jantar, onde o irmão se revela uma pessoa extremamente preocupada com Makoto e disposta a fazer sacrifícios pessoais em prol da felicidade do jovem adolescente; e a cena no clube de arte, que mostra uma redenção de Makoto, tanto perante a jovem que tem um fraquinho como pela colega de turma esquisita que o admira ao longe. Este é um ponto que quero dedicar atenção em particular. Como Makoto bem descreve, as pessoas não são de uma só cor, somos compostos por várias tonalidades e não há nada de errado com isso. Isso é uma bonita lição, mas como tudo na vida, ao admitir isso temos de chegar ao passo seguinte e admitir que as pessoas e a realidade não se reconduzem a uma ou poucas premissas. A família de Makoto, os colegas de escola, o amigo que, entretanto, o jovem conseguiu fazer, tudo isto vão ser decisivos para o desfecho final do filme. Mas mais que isso, nós não sabemos o impacto que temos nas outras pessoas, não necessariamente nas pessoas da família e de amigos próximos, mas de pessoas que conhecemos por alto ou só de vista, ou até só das redes sociais. Makoto aprende que toda a sua vida foi alvo de admiração, pela forma como lidou com o bullying mantendo a postura, pela família que se preocupa com ele e quer o seu bem apesar dos seus erros, pela jovem sobre a qual tem um fraquinho. Nós muitas vezes pelo que dizemos, fazemos, transpomos ou somos, transmitimos uma mensagem à sociedade, que por vezes é mais profunda e impactante do que pensamos. Mas ao mesmo tempo, e começo por falar por mim, temos dificuldades tremendas na comunicação. Esse aliás é um dos motivos pelos quais criei este blog. Comunicar é um ato complicado e complexo. É mais fácil dito que feito, e Makoto sente isso, até finalmente conseguir na cena do jantar que falei acima falar claro à família e deixar a mensagem que lhe vai servir de força para avançar com a sua vida. Será que nós conseguimos transmitir sempre a mensagem que pretendemos? Aos nossos pais, avós, irmãos, familiares, amigos, colegas de trabalho, chefias? Provavelmente não, exatamente porque cada pessoa tem uma tonalidade diferente e temos dificuldades em compreender uns aos outros. Por esse motivo tinha de falar do filme no blog.



Deixando de parte os aspetos formais da realização, para os quais outros blogs estão melhor habilitados que eu para discutir, o filme tem uma mensagem forte, sendo um filme focado na visão de adolescente que é uma fase da vida difícil, na qual os problemas de adulto começam aos poucos a surgir (para uns mais depressa que para outros), embora seja um filme que mais facilmente um adulto entende a mensagem. No início deste artigo disse que revi o filme há pouco tempo. É verdade. A primeira vez que o vi foi há uns anos, e tal como disse no artigo da Cartuxa de Parma, na altura não senti a mensagem de Colorful como senti agora. Na altura que vi, achei até um filme desconfortável e em larga medida desagradável. Hoje penso o oposto. Por tocar em temas tão essenciais para a nossa sociedade, desde a saúde mental, a comunicação com os outros, a aceitação do próximo, o crescimento pessoal, são tudo coisas que atingem todas as idades. Por isso não posso deixar de recomendar o filme.