quinta-feira, 17 de setembro de 2026

“Servidão Humana”, de Somerset Maugham (1915)

 



Uma das coisas que caracterizam a grandeza de um escritor é o facto de diferentes espíritos encontrarem nele diferentes inspirações.


As primeiras coisas que me ocorrem quando quero escrever sobre este livro são aquelas que provavelmente mais me perturbaram nos primeiros 30 anos da minha vida: em que acreditar, em que valores, como concretizar o nosso destino, como criar um homem novo, qual a cura ou solução dos problemas de amor, qual a nossa fé e como agir com os nossos medos e inseguranças. Acredito que, de uma maneira ou outra, muitas destas questões passaram pela nossa mente, e creio, em jeito de prognose, que provavelmente muitos de nós, direta ou indiretamente, passaremos a vida a pensar nelas.


Perguntava a si próprio se não seria verdade que, quando impomos a nossa vontade, sempre nos arrependemos.


O livro foca o crescimento, a infância e as primeiras décadas da idade adulta de Philip Carey. O começo não podia ser mais trágico: uma pequena criança em Londres, que é acordada a pedido da sua mãe, que o quer abraçar e dar carinho, antes de os médicos mandarem retirar o pequeno Philip com medo de contágio. Sem se aperceber de imediato, Philip assistiu ao leito de morte da sua mãe, doente terminal, e quase sem dar por isso foi enviado para casa de uns tios numa pequena cidade no litoral inglês, para que o educassem e administrassem a sua herança até chegar à idade adulta.


Cada um tem as crenças da sua geração.


A partir daqui entramos numa grande aventura da vida de Philip e de arcos em diferentes fases da vida, começando pela vida escolar, inicialmente cruel e de dificuldades (em função de um modelo de ensino largamente ultrapassado para a época) e da crueldade das crianças, que o ostracizaram numa fase inicial em função das suas dificuldades motoras (o pé boto), procurando o jovem Philip refugiar-se no estudo e nos livros.


A partir daqui, a história encaminha-se para caminhos improváveis, desde a certeza da vocação, fé e do futuro até às dúvidas estudantis e de crenças que o levam até à Alemanha, em busca de descoberta pessoal e de outros valores, até à quebra abrupta do caminho que os tios queriam que seguisse, com o regresso a Londres para tentar uma carreira de contabilista (que rapidamente abandona), seguida, por influência de um conjunto de jovens intelectuais que conheceu nas passagens anteriores, de uma temporada em Paris para tentar a carreira de pintor, até que, esmagado pela incerteza da carreira artística e pela incerteza sobre o seu talento, regressa a Londres para se matricular numa faculdade de medicina e seguir a vocação do seu falecido pai.


As brilhantes esperanças da juventude tinham de ser pagas ao preço amargo da desilusão.


Neste segundo regresso a Londres, que no fundo é o principal e mais complexo arco do livro, acontece de tudo e Philip parece viver tudo.


Neste ponto, parte de nós quer repreender Philip pela sua estupidez e obtusidade (sobretudo com Mildred que, conjuntamente com a imaturidade de Philip, é caracterizada como a arquiteta da sua miséria). Ao mesmo tempo, a infantilidade de Philip choca-nos, quer pelo tratamento cruel de que não se apercebe a pessoas honestas, quer pelo excessivo idealismo e pela irresponsabilidade com que toma as decisões.


Ao mesmo tempo, Philip continua a debater todas as questões existências, dentro de um espírito científico que descobriu em criança (e que, na verdade, nunca o abandonou), enquanto observa a sua vida e a das pessoas suas próximas a seguirem (na maior parte das vezes tragicamente) rumos diferentes daqueles ideais de juventude.


A realidade diferia terrivelmente do ideal dos seus sonhos.


Talvez aquilo que mais nos incomoda em Philip seja porque ele ser um retrato de muitos de nós em jovens: tolos, idealistas, demasiado irredutíveis, e com um desejo de realizar algo e mudar o mundo, enquanto aprendemos lições de forma por vezes dura. No caso de Philip, que rapidamente passou de uma vida mais ou menos confortável para uma situação de bancarrota, fome e dificuldades em garantir o seu sustento (bem como terminar os estudos de medicina), estas circunstâncias criam um homem claramente diferente daquele descrito na maior parte do livro.


A chuva caída tanto sobre o justo como sobre o ímpio, e para nada neste mundo havia motivo ou causa.


O livro foi duro mas importante pessoalmente de ler: até porque faz lembrar uma idade e um conjunto de anos de grande incerteza e dúvida nos jovens. No entanto, por linhas talvez tortas, acaba por chegar a um bom porto, provando que está tudo bem se a nossa vida não foi (ou é) exatamente o que idealizámos.


Como num artigo do Marco escrito há uns anos, falhar, errar e reagir ou redimir o erro é duro, mas não é por isso, nem por todas as coisas que a vida nos possa atirar, que não podemos ter sucesso: há várias maneiras de ter sucesso, ainda que não possamos criar um homem novo ou um mundo novo (pelo menos como gostaríamos).


O sábio, então, narrou-lhe a história do homem numa simples linha. Era esta: nasceu, sofreu e morreu.


Indo a aspetos mais formais, o livro tem também pontuais momentos de humor e delicioso sarcasmo para quem o aprecia; é também um livro, de certa forma (e em função da altura da publicação), de transição entre aquele estilo de realismo do século XIX para talvez um final desse estilo ou, se se preferir, de adequação a um novo século. É, por isso, uma realidade mais próxima da que muitos de nós vivemos hoje.




sábado, 5 de setembro de 2026

Mulheres (1978), de Charles Bukowski

 



Este ano, com o livro do cubano Pedro Juan Gutiérrez, Trilogia Suja de Havana, descobri e comecei a explorar um estilo literário designado pelos entendidos em literatura como Realismo Sujo, que, desde já, sublinho, não é para todos, dada a crueldade nua e a linguagem sexualmente explícita e repleta de asneiras. Não obstante, acho este estilo particularmente interessante, pois tem o mérito de conceber personagens que, numa lógica tradicional de romance, são, ao mesmo tempo, vilões, heróis, agressores e vítimas. Nesse sentido, depois de ter lido outros autores associados ao estilo, como Philip Roth e Michel Houellebecq, achei que podia ser interessante trazer este livro de Bukowski (o primeiro que li do autor) ao blog.


“As pessoas costumam ser muito melhores nas cartas do que na realidade. Nesse sentindo, assemelham-se bastante aos poetas”


Este livro acompanha o dia a dia de um poeta de quase 60 anos, Henry “Hank” Chinaski, antigo funcionário dos correios que largou esse ofício para se dedicar à escrita, tendo alcançado algum sucesso. Visto de fora, uma pessoa que se autodescreve como feia e mal-educada (a roçar o nojento) parece ter bastante sucesso com as mulheres — maioritariamente leitoras suas fãs, mais novas e bonitas —, ao mesmo tempo que não prescinde do seu estilo agressivo ou, se se preferir, quase a roçar o labrego rude.


Mas a contradição entre uma escrita cativante e uma personagem egoísta, cruel e sedutora acaba por criar um protagonista que, analisando todas as vertentes que compõem uma pessoa — a raiva, o sofrimento, a insegurança, a desilusão com o mundo e os apetites —, se torna, cada vez mais, pela sua complexidade, profundamente humano.


Ao longo de todo o livro, vemos Hank a quebrar o coração de várias mulheres (talvez procurando nisso inspiração para a sua escrita), ao mesmo tempo que, com elas, quebra tabus, fantasias e fetiches de uma forma que, se calhar, muitos homens invejariam. Por outro lado, vemos um homem profundamente dependente, quase sempre embriagado e viciado não só em sexo, mas também em apostas no hipódromo (corridas de cavalos), e incapaz de criar uma relação séria de qualquer tipo. Seja pela amizade que quebra de forma absolutamente inacreditável com Bobby, seja pelo fracasso em criar algo com as duas mulheres que, neste livro, mais o cativam, Lydia e Sara (cada qual com a sua personalidade e as suas neuras), Hank, mesmo sabendo que causa sofrimento com a sua vida e o seu insaciável apetite por mulheres novas, cativadas pelos seus poemas, não consegue escapar à dependência e à crueldade com que se conformou.


“Todas as mulheres são diferentes. Basicamente, parecem ser uma combinação do melhor e do pior: simultaneamente mágicas e terríveis. Mas ainda bem que existem.”


O que mais me cativou neste livro foi a quebra do mito do “rebelde irreverente” e a simpatia que, apesar de tudo, ainda conseguimos sentir por Hank. O que, em teoria, deveria ser uma personagem invejada e aplaudida por outros homens (e, simultaneamente, desprezada por outras tantas mulheres), pela vida que leva e, sobretudo, pelo prazer sexual com mulheres novas e bonitas, acaba, no fundo, por mostrar-nos uma personagem destruída e triste. O peso da realidade e do passado, que, ainda que não seja muito detalhado, é algo que se percebe que o personagem pensa bastante, acaba por ser suportado através de um permanente ciclo de vícios autodestrutivos, que lhe causam, em simultâneo, prazer e sofrimento.


“quando a tensão e a loucura eram eliminadas da minha vida quotidiana parecia que não restava grande coisa a que me agarrar”.


Dadas as características do livro, não diria que seja uma leitura para todos os leitores (tal como acontece com qualquer livro deste estilo de Realismo Sujo), não porque a escrita seja difícil — não o é em Bukowski; pelo contrário, é bastante simples e acessível —, mas talvez porque o palavreado e as descrições possam ser demasiado para um leitor mais sensível ou que não esteja habituado a este tipo de linguagem.


No entanto, não posso deixar de recomendar o livro, sendo que irei, certamente, explorar outros livros do autor.



sábado, 2 de maio de 2026

A besta humana (1890) de Émile Zola






“Há muitas coisas que gostaríamos de fazer e não fazemos, porque ainda são as mais convenientes”


Começo este artigo a invocar as minhas memórias de aluno de licenciatura em dois momentos distintos. Por um lado, recordo que, numa das primeiras aulas de Direito Penal, o assistente, em jeito de introdução à disciplina, mencionou algo que depois procurou disfarçar: a ideia de que, em regra, a todas as pessoas, ou a quase todas, já lhes passou, ou pode ter passado, pela cabeça alguma ideia homicida. Por outro lado, recordo também que, no âmbito da disciplina de História das Ideias Políticas, quando estudámos Hobbes e a sua obra de referência, Leviatã, a escolha do título não foi inocente. O Leviatã, na mitologia, é um monstro, e muito da filosofia política de Hobbes consiste na alegoria do homem como um ser profundamente maldoso e, como tal, na defesa de uma ideia de Estado cujo fim era, no fundo, conter a maldade humana (numa lógica de conter o monstro), mesmo que, para isso, tivesse de assumir uma feição altamente repressiva.


Partindo deste ponto, A Besta Humana foi um livro que me surpreendeu pela positiva. Com a ação passada na França do século XIX, numa fase da História marcada por um enorme progresso tecnológico, que no livro tem como expoente principal o setor dos transportes ferroviários (em particular, a linha entre a cidade normanda de Rouen e Paris), o livro foca-se fundamentalmente em três personagens: o casal Roubaud e Séverine, com um início de enredo bastante intenso e algo imprevisível para o estilo de escrita a que estava habituado na época (cujos livros normalmente “demoram a arrancar”), e Jacques, o condutor do comboio.


Numa escrita bastante sucinta e bem segmentada, características gerais do livro como um todo, os dois primeiros capítulos arrancam a uma velocidade alucinante, num caldo literário que mistura política, crime, ciúme, amor, família, dinâmicas testamentárias e progresso tecnológico. À medida que avançamos na ação, depois de um início muito intenso, verificamos que o desenrolar da história não é nada previsível ou, se se preferir, lógico/racional, o que nos leva a considerar um conjunto de questões sobre a natureza humana. Desde logo, se e até que ponto é possível suprir a natureza malévola ou cruel do homem e, no debate sobre a qualidade da natureza humana — um debate milenar, com várias teses —, se essa qualificação/natureza muda consideravelmente perante o enorme progresso tecnológico.

De certa forma, esta variável da evolução tecnológica acaba por conferir ao livro uma componente de (maior) atualidade, sendo profundamente pertinente e prática nos dias de hoje, na atual era de consolidação das Redes Sociais e de um certo progresso tanto dos algoritmos como da Inteligência Artificial. Em termos sumários, o livro leva à reflexão sobre:

  • Se a natureza humana é boa ou má;
  • Se essa natureza piorou com a robotização/evolução tecnológica;
  • Ou se, pelo contrário, a nossa natureza se manteve tal como estava, tendo sido apenas eventualmente alterada no sentido da aceleração — uma aceleração humana, numa tentativa de acompanhar a aceleração da máquina.


“Ah!, é uma bela invenção, não há dúvida. Anda-se depressa, aprende-se mais… Mas os animais selvagens não deixam de ser animais selvagens e, mesmo que se inventem máquinas ainda melhores, o animal selvagem continuará presente.”


As temáticas com que o livro arranca continuam sempre presentes ao longo de todo o seu enredo, com voltas e reviravoltas altamente surpreendentes. Um outro aspeto, talvez mais lateral, que gostaria de destacar neste livro é, como não poderia deixar de ser, a crítica satírica que faz à justiça e à investigação criminal, tendo como figura central o juiz de instrução Denizet. Na minha opinião, esta personagem gera emoções mistas: para quem olha para ela de um prisma mais pessoal, claramente este juiz passa por “cromo” ou “totó” do livro; mas, para quem tem mais proximidade com o sistema judicial e, em particular, com a investigação criminal, o juiz Denizet acaba por ser uma triste caricatura do funcionamento deficiente da justiça. Não só pela qualidade da investigação que conduz, mas também pela forma como lida com externalidades fora do tribunal, nomeadamente questões políticas e de progressão na carreira. Tudo isto nos deixa, de novo, com a questão de saber se a nossa sociedade moderna mudou assim tanto quanto isso. Arriscaria a responder que, face ao teor atual do livro, talvez não. Esta crítica acaba por ser também transposta para os mass media, sobretudo para os jornais, que procuram no sensacionalismo a sua promoção lucrativa, de mãos dadas com uma agenda que não é necessariamente inocente.


Era um triunfo para o juíz de instrução  Denizet, porquanto não se poupavam elogios, no mundo judicial, quanto à maneira como ele levava a bom termo esse processo complicado e obscuro. uma obra prima de fina análise, dizia-se, uma reconstituição lógica da verdade, uma autêntica criação, na verdade.”.


Em comparação e em referência ao artigo anterior que escrevi sobre Náná, outro livro de Zola, pessoalmente, achei que A besta humana é um livro mais completo e melhor escrito: não é volumoso, está bem segmentado em termos de capítulos, a leitura é agradável, e aborda eficazmente todo um rol de temáticas díspares, o que me faz recomendar a sua leitura.


“A pressão do poder e as violências dos perfeitos forneciam-lhe diariamente outros temas para os artigos indignados; de modo a que, deixando os jornais de se ocupar do caso, este não voltou a alimentar a curiosidade apaixonada da multidão. Já nem sequer se falava dele.”