quarta-feira, 13 de setembro de 2023

O Conde de Monte Cristo (1844), Alexandre Dumas – Crítica

 


“Há virtudes que se tornam crimes pelo exagero.”.

 

Começo este artigo em que volto ao blog com uma breve reflexão sobre a leitura: o prazer que acredito que seja comparável ao terminar de uma maratona, a adrenalina de virar as páginas, olhando para o que já se leu ao mesmo tempo a história nos agarra e estamos ansiosos por saber a seguir o que vai acontecer ao personagem que aprendemos a gostar. Ao mesmo tempo ao ler partilhamos as ideias do autor e confrontamos com as nossas. Umas vezes rimos, outras paramos para meditar, outras vezes abanamos a cabeça. Este é o grande prazer da leitura. 

Ao mesmo tempo, no início do ano coloquei o objetivo para me disciplinar de ler pelo menos um livro por mês: O Conde de Monte Cristo foi o meu 13º (em termos de sequência) livro lido em 2023, e, tal como o maratonista que chega ao fim depois de um longo caminho, também eu, se o leitor me permite, sinto orgulho de mim mesmo por este pequeno objetivo alcançado.

 

O Conde de Monte Cristo foi uma sugestão de um amigo meu depois de ter lido os Miseráveis de Victor Hugo. Sendo contos um pouco diferentes, creio que Dumas é um melhor contador de histórias que Victor Hugo, embora não tenha a sua profundidade. Como tal, Dumas e esta magnifica obra merecem um artigo neste blog.

 

Mas por onde começar? O Conde de Monte Cristo, um dos alter egos de Edmond Dantés, é uma história que mistura várias sensações: preso injustamente na sequência de uma conspiração mesquinha de pessoas próximas (o ciumento Fernand, o invejoso Danglars e o Villfort, o procurador oportunista), nas primeiras páginas agarra o leitor pela reação à tremenda injustiça que caiu sobre Dantés, que é apresentado como um homem humilde, de bom coração e trabalhador. Após a bem-sucedida fuga da prisão, Dantés vive um misto de emoções: descobre graças ao seu mentor uma fortuna incalculável, rapidamente assume a postura por um lado de filantropo mas por outro, e o que vai marcar a esmagadora maioria do livro, um forte desejo de vingança sobre os responsáveis dos seus longos anos de miséria.

“Não tenho medo de fantasmas, e nunca ouvi dizer que os mortos tenham feito assim tanto mal durante seis mil anos como os vivos são capazes de fazer num dia.”

 

A vingança é algo que quero destacar à parte: muitos de nós atualmente falamos na figura budista do Karma (pese embora não seja inteiramente aquilo que culturalmente no ocidente é percetível como tal), e de facto a sede de vingança é algo que muitas vezes nos afeta: nas séries, nos filmes, no animes, vibramos com histórias de vingança, sentimos prazer com isso, um pouco assumindo a pele de “justiceiro” que corrige as deficiências do mundo. Mas Dantés, depois de centenas de páginas marcada pela forte e absoluta ideia de vingança, em moldes surpreendentes, perante uma situação onde o dano causado a um dos responsáveis é manifestamente desproporcional ao que inicialmente tinha concebido, mostra uma nova evolução: começa com a personagem do homem simples e honesto, assume a perspetiva do homem culto, misterioso e demasiado apaixonado pela crueldade, até que termina o livro como um homem humano, mais equilibrado, que pretende fazer algo do presente e futuro, ao invés de se deixar consumir pelas emoções fortes do passado. Não por acaso que gosto de falar na História da Humanidade. Muitas vezes temos dificuldade em aceitar o que aconteceu. Mas falo também da nossa história de vida, o desafio de aceitar o nosso passado é por vezes difícil, mas fácil dito que feito, e esta é com este magnifico sabor literário que Dumas termina simbolicamente o livro.

“As feridas têm esta peculiaridade: podem estar escondidas, mas nunca cicatrizam, são sempre dolorosas, estão sempre prontas a sangrar quando tocadas, permanecendo abertas e vivas no coração.”

 

“Não  há felicidade nem infelicidade no mundo; há apenas a comparação de um estado com o outro, nada mais. Aquele que sentiu a dor mais profunda é quem melhor pode apreciar a suprema felicidade . . . toda a sabedoria humana se resume nestas palavras: Aguardar e ter esperança.”


O Conde de Monte Cristo é também uma obra marcada pelo sentido de humor do autor, desde subtis provocações entre conversas da alta sociedade até a pequenos fragmentos de enorme sabedoria popular. É também um livro em que sentimos que o autor já tinha a história pensada desde o início e que fecha muito bem todas as pontas soltas da história e que todos os personagens introduzidos tiveram o seu propósito para chegar a este final: seja com um misterioso falso príncipe italiano ou com a introdução de várias gerações diferentes de uma família, cada um deles cuidadosamente colocado no enredo.

“- Estou a ver; para os seus criados é «senhor», para os jornalistas é «senhor», enquanto os constituintes o chamam de «cidadão». Essas são distinções muito apropriadas para um governo constitucional. Compreendo perfeitamente.”

 

Por todos estes motivos, o Conde de Monte Cristo foi uma aposta certeira e uma obra que recomendo vivamente!


quarta-feira, 12 de julho de 2023

Pequenas misérias da vida conjugal, Balzac (1845) – Crítica

 



“Todos os casais têm o seu tribunal de cassação, que jamais se ocupa do fundo e apenas julga a forma.”

Depois do sucesso que o artigo da Ana fez, achei que seria uma boa oportunidade de voltar a escrever sobre algumas reflexões que o tema amor e relações têm tido neste blog. Quando tudo começou, em 2018, estava eu longe de imaginar que iria escrever sobre isto, mas o que é facto é que consciente e inconscientemente o tenho feito. Assim de cabeça, o primeiro artigo que foi nesse sentido foi este, um artigo que fiz menos publicidade que o habitual, e que não foi nada menos que uma declaração de amor a uma antiga leitora. Terminei esse artigo a recomendar uma anime que aprecio imenso, My Youth Romantic Comedy Is Wrong, as I Expected. Independentemente dos acontecimentos, não posso de forma alguma afirmar que me oponho à rescrição da História se vou fazer o mesmo no meu blog, por isso o artigo continua disponível. Após isso, tanto o Nossa Senhora de Paris como os Miseráveis, passando pelo livro do Vítor e até ao último artigo publicado pela Ana, o amor e as relações, de uma forma ou de outra, continuaram aqui no blog. E este livro, nesta hora dá me um ótimo contexto para reforçar a temática.

Normalmente o que associamos ao amor romântico no universo da cultura é os dois extremos temporais ou, se se preferir, os dois extremos sentimentais: vimos isso por exemplo (e agora até tem sido falado de novo devido ao acidente do submarino que infelizmente vitimou turistas), o filme do Titanic com os dois dias de intensa paixão; ou então, o amor é tratado como fase final de uma relação em declínio e destinada ao fracasso: por exemplo, na série do How I Meet Your Mother, tivemos uma fase do chamado “Outono do fim das relações”. Por isso o que Balzac nos traz neste livro é diferente e menos tratado, talvez porque não puxa tanto as emoções fortes: os episódios do durantes as relações.

 

“O Vício, o Cortesão, a Infelicidade e o Amor só conhecem o presente.”

 

Balzac, numa tirada cómica e realista, apresenta-nos neste pequeno ensaio a história do casal Adolphe e Caroline: o primeiro, que tentou (e conseguiu) chamar a atenção para o meio cultura parisiense, aparentando um futuro glorioso; a segunda, mulher citadina com um dote significativo, tenta manter a imagem em Paris do século XIX. O livro está essencialmente dividido em duas partes, cada uma focada em no homem e na mulher, mostrando as pequenas (pequenas, no universo da coisas e da História) situações do dia-a-dia que tornam as relações mais desafiantes e que se afastam daquilo que é aproveitado para exposição nos meios culturais: a administração do património da família (nos seus altos e baixo); as opções para a educação dos filhos e divergências entre progenitores; os relacionamento/amizades de família, bem como a imagem que transparece; a necessidade de tentar manter a chama da relação acesa, ponto esse sentido sobretudo por Caroline a partir de certo momento. E (quem nunca?) poderia deixar de parte o choque de personalidades, que alias não é exclusivo nas relações amorosas mais é grande parte da vida.

 

“As mulheres, que sabem sempre muito bem explicar as suas grandezas, deixam-nos as fraquezas para nós advinharmos”

 

“Um autêntico grande homem é sempre mais ou menos criança.”

Balzac não fez questão de construir aqui um casal perfeito nem uma história sensacionalista. A sensação que dá ao leitor, após as duas perspetivas, é a de que tanto Adolphe como Caroline são pessoas medíocres, e todas as temáticas do dia-a-dia das relações no grande esquema das coisas são algo que impacta a nossa vida, mas não é nada que fique como legado pessoal na humanidade.

 

“… num casal não existem misérias pequenas. Sim, aqui tudo se amplia pelo contacto continuo das sensações, dos desejos, das ideias.”

 

Fora isso é um livro divertido, sendo muitas vezes a narrativa interrompida com axiomas engraçados, o que demonstra o quão Balzac sentiu o amor e foi um homem romântico. Mas se é divertido, medíocre, confuso, aborrecido, conflituoso ou tonto, isso é porque as relações são mesmo assim. Admito, talvez por uma solidariedade de género que creio existir sempre (quem esquece as expressões inglesas “Sisterhood” ou “bros before hoes”?), que talvez tenha sentido um pouco mais de proximidade com Adolphe e que uma leitora provavelmente entenderá Caroline melhor que eu. Ainda assim, arrisco a escrever este sobre este livro, fazendo votos que a mensagem do mesmo não seja muito diferente daquilo que escrevi, sendo que o recomendo.

 

“Esta pequena miséria tem por fim demonstrar que, em matéria de decepções pessoais, os dois sexos estão bem quites um para com o outro”


domingo, 2 de julho de 2023

Tudo o que sei sobre o Amor (2022), Dolly Alderton - Crítica (Ana Luísa Gonçalves)

 



Prólogo: Nada melhor para o regresso ao blog depois de 1 mês de pausa com uma nova pessoa que por própria iniciativa aceitou o convite que lhe tinha feito há uns meses de escrever aqui. A Ana (que carinhosamente chamo Dra. Ana em homenagem às formalidades altamente desnecessárias do meio jurídico) num artigo maravilhosamente escrito, veio trazer a esta página um conteúdo diferente. Algo que a nossa geração (nascidos nos anos 90) facilmente identifica, e algo que é mais vocacionado para as mulheres da minha geração, as tristezas e alegrias do amor que anda a passo com as chamadas dores de crescimento. É inegável o peso que a temática do amor já teve nesta página: não por acaso é um dos temas centrais dos livros que normalmente critico. Mas a Ana, com um novo livro e uma nova abordagem, dá-nos algo com que podemos aprender e compreender melhor o mundo. É com enorme gosto que publico aqui o artigo dela, na esperança de que ela não fique por aqui. Sem mais demoras, o artigo (Luís Araújo).


Após uma ida a uma conhecida livraria da nossa praça, em que nenhum livro parecia chamar muito por mim, acabei por sair de lá com 3 livros. Só mais um dia normal na vida de uma “livrólica”.

Um deles foi “Tudo o que sei sobre o amor” de Dolly Alderton, escolhido por ter gostado muito do seu único livro de ficção “Estás aí?”. Quer isto dizer que o livro sobre o qual vos escrevo é de não ficção.

No início da leitura, comecei por me identificar bastante com a autora, já que ela começa por nos descrever os dias passados no MSN Messenger. Todos aqueles que se aproximam dos 30 têm recordações desta plataforma de contacto e irão rever-se na escrita de Alderton sobre as estratégias utilizadas para, por exemplo, ser notada pela pessoa com quem queríamos falar. Esta identificação com a autora foi especialmente sentida com a frase “eu estou sempre metade na vida, metade numa versão fantástica dela que vivo na minha cabeça”.

Com o desenrolar da narrativa podemos acompanhar o desenvolvimento da vida amorosa da adolescente Dolly, com todas as aventuras que essa fase da vida pode proporcionar, mas é com a entrada na idade adulta que a autora vive as histórias mais épicas, perigosas e memoráveis, regadas a álcool, pontuadas por drogas e tendo sempre o objetivo de ter a experiência mais inacreditável possível para contar às suas amigas.

Estas histórias têm quase sempre um ponto em comum: um encontro com um homem, esteja ele a 300km ou a 10 minutos de carro, e têm finais tão diversificados como um pedido de casamento no aeroporto ou um convite para um ménage a trois. 

Ao longo do livro vamos tendo a perspetiva da autora sobre tudo o que sabe sobre o amor desde a adolescência até aos 30 anos, vários capítulos intitulados “Diários dos maus encontros”, outros denominados “As crónicas das festas foleiras”, e-mails-convite que ironizam eventos sociais tais como a despedida de solteira ou o baby shower e até receitas – gostei especialmente da “Sole Meunière para sedutoras” que termina com o seguinte parágrafo: “Servir acompanhado de uma salada verde ou com feijão verde e batata assada (não basta servir com um coração grande e aberto.)”, tudo intercalado, para evitar o aborrecimento do leitor – algo impossível com a escrita de Dolly, creio eu.

Mas desengane-se quem acha que este livro é apenas sobre amores e desamores com as pessoas por cujo género a autora se sente atraída. Este livro é uma ode à amizade com as mulheres com quem partilha a vida. Ao lê-lo entendemos que o verdadeiro amor na vida de Dolly é protagonizado pelas suas amigas, fiéis companheiras que a seguram e a quem ela segura. Juntas passam pelo período conturbado que é a vida em geral, apoiando-se sem reservas.

Neste livro encontramos também a reflexão da autora sobre a passagem inexorável do tempo, a juventude que vai e não volta. A autora partilha que gostava de voltar aos 21 anos com a sabedoria que tem perto dos 30 e acrescenta que a juventude é desperdiçada nos jovens. Concordo em certa medida. De facto, vivemos os nossos vintes sem saber exatamente como vivê-los. Estamos a aprender sobre nós, sobre o que nos rodeia, não sabemos ainda bem que caminho seguir. É o período da nossa vida em que temos mais vitalidade, e gastamo-la muitas vezes em dramas que, aposto, daqui a uns anos só nos farão rir. Mas é como sentimos que os devemos viver e respeitar-nos é, no fundo, o mais importante. 

Em suma, Alderton, numa partilha sincera, generosa e pautada por um sentido de humor acutilante, dá-nos a sua visão da vida numa obra que me permitiu estabelecer comparações, paralelismos, identificar-me, sorrir e comover-me, sem conseguir parar de a ler. 


terça-feira, 16 de maio de 2023

«E se amanhã, tu, não estiveres?» (2014) de Vítor Alves Morais – Crítica


 


“Engraçado, passamos toda a nossa vida a pensar única e exclusivamente no futuro, acabamos por não viver o presente porque estamos a pensar no futuro, e quando ele chega, tudo aquilo que nós planeamos não serve de nada, porque a realidade é sempre outra.”

 

Este blog tem cumprido o seu propósito: explorar coisas novas e experimentar conteúdo novo. Este artigo é mais um nesse sentido. Uma vez que vou experimentar algo novo, vou trazer um livro diferente dos que tenho trazido até agora – diferente no sentido de que pela primeira vez vou analisar um livro de um autor que conheço pessoalmente e tenho em boa consideração.

Mas antes de irmos para a crítica em si, quero partilhar duas coisas pessoais: a primeira, que contrariamente ao que tenho feito este ano, não critiquei todos os livros que li. Antes de ler o livro do Vítor, li o primeiro escrito publicado de Dostoievski “Gente Pobre”, publicado aos 25 anos do autor. É um livro simples e de leitura rápida, mas foi motivador e inspirador para mim, uma pessoa que é grande apreciadora da literatura de Dostoievski, por ter ganho a noção da sua estrondosa evolução, iniciada com o “Gente Pobre” e terminada numa verdadeira obra prima, “Os Irmãos Karamazov”, um dos melhores livros de sempre; a segunda coisa que queria partilhar é a que raramente leio o mesmo livro duas vezes, e só abri essa exceção para três livros: o primeiro, “O Crime do Padre Amaro” de Eça de Queiroz, que acho que para iniciação a Eça é mais acessível que “Os Maias”; o segundo, “Demónios” de Dostoievski, um verdadeiro caldo de filosofia e política, um livro avançado para época, quase como que em jeito de profecia sobre o que viria a acontecer à Rússia no século XX; e o terceiro, este livro que vou crítica agora: já o tinha lido há uns anos, mas senti que nesta fase da minha vida e dados recentes acontecimentos, consigo entender melhor a mensagem que o autor quis transmitir.

 

“A vida é irónica… É irónica, mas não madrasta, como alguns dizem… A vida é boa mãe… educa-nos…”

 

As temáticas do livro podem sumariamente reconduzir-se a quatro núcleos: o primeiro relacionado com o Alzheimer, a velhice e o sofrimento que isso implica não só ao doente como às pessoas que lhe são queridas; o segundo, relacionado com a morte (que infelizmente senti muito recentemente) e a efemeridade da vida que, apesar de ser um tema desconfortável de falar, cedo ou tarde todos somos chamados a enfrentar; e o terceiro, o amor sobre as suas mais diversas manifestações, o modo como nos aquece a alma em moldes equiparáveis aos que nos leva ao desespero e (quem nunca?) ao arrependimento, pelo o que se fez e pior ainda, pelo o que não se fez; e finalmente, a escrita, esta maravilhosa e libertadora atividade que é uma manifestação de conforto e liberdade que devemos preservar e incentivar!

 

“… nesta vida há muita coisa que fica por dizer, há muita discussão que fica por resolver, muito amor por demonstrar, muita amizade que termina sem qualquer motivo que realmente valha a pena, por isso, faz sempre a pergunta “E se amanhã, tu, não estiveres? Quando estiveres à frente de alguém que ames. Vais ver que será tudo muito mais fácil…”

 

É com todas estas temáticas que o Vítor nos constrói uma belíssima história, uma história iniciada nos anos 30 do século XX numa pequena aldeia raiana transmontana onde o narrador começa por descrever sinteticamente as terríveis condições de vida e enormes desigualdades sociais que não há muitas gerações era o presente de milhões de portugueses; a obra mostra também a efemeridade da riqueza e do património, não esquecendo os tremendos choques que a vida nos coloca que afetam indiscriminadamente todas as pessoas, independentemente da base patrimonial. No centro desta enorme ginástica literária, temos Marília, transmontana, adotada pela fidalga benfeitora Pilar Moreira de Albuquerque, amiga de Afonso (o seu médico e fiel vassalo, digamos assim), bem como a filha de Marília, Pilar Veiga.

É surpreendente as temáticas que o livro aborda: paralelamente ao já referido, os personagens da história progridem na história em tempos diferentes e lugar diferentes: de Trás-os-Montes, a Coimbra, de Sintra a Lisboa, dos anos 30 a 2014, ano que termina a história.

Analisando agora os aspetos formais, o narrador oscilar harmoniosamente entre vários personagens e vários momentos históricos, algo que para quem escreve não é de todo fácil, mas que o Vítor consegue fazer com qualidade. Ao longo do livro vemos também o uso típico de expressões correntes de determinados contextos e determinado “status” social, desde as típicas expressões transmontanas, até ao corrente uso de impropérios que todos nós usamos em determinados contextos e determinados momentos. Este livro, em função da sua natureza, dimensão e multiplicidade de temáticas que aborda, naturalmente que não consegue densificar todas elas com o nível que mereciam, mas na minha opinião isso acaba por abonar a seu favor por dois motivos: o primeiro, torna o livro num livro de leitura fácil e rápida; e o segundo, motivo pelo qual comecei este artigo a falar do primeiro livro de Dostoievski, mostra o tremendo potencial que o Vítor tem e pode ainda vir a alcançar no meio literário, o que me deixa muito curioso sobre futuros livros que ele venha a publicar e de ver a minha geração conseguir alcançar o seu espaço neste mundo das letras.´

Por todos estes motivos, recomendo vivamente a leitura do livro, sendo que vou ficar atento à carreira do Vítor, desejando que ele não abdique do talento que tem.

“O que há de bom no futuro é o mistério. É a incerteza. O passado já nós o sabemos, já nós o vivemos, por isso, pouco tem de interessante.”

terça-feira, 25 de abril de 2023

1984, George Orwell (1949) – Crítica

 



“Nada existe senão através da consciência humana.”


Quero começar este artigo com uma partilha pessoal do ano letivo 2012/2013: estava eu no 12º ano no curso de Línguas e Humanidades, e desse ano houve dois professores e duas disciplinas que me marcaram: a primeira, sem surpresas, História A, que naquele ano focava o estudo da história entre a Primeira Guerra Mundial e a atualidade, e foi naquelas aulas que ouvi falar de Orwell e do livro que vou analisar neste artigo (e que só 10 anos depois li...), mencionado a propósito do estudos dos totalitarismos e dos estados totalitários do século XX; a segunda, Geografia C, que ao contrário da Geografia de 10º e 11º que foca atenção (quase) exclusivamente a Portugal,  trata da Geografia Humana à escala global na atualidade. Nesse ano, a avaliação de Geografia C era com base num teste e num trabalho e dado o programa e os meus interesses, as temáticas que mais gostei foram o Terceiro Mundo, os conflitos regionais e a geopolítica – aquilo a que chamo a “ação”, o verdadeiro campo de batalha do futuro da humanidade. Fiquei por isso aborrecido quando o tema do trabalho que me calhou no 3º Período foi “A Circulação Global da Informação”, que à época não me era tão apelativo e por isso tive uma nota um pouco mais baixa em comparação com os outros trabalhos. O professor até estranhou e disse que “não estava nos meus dias”.


“A guerra é uma forma de destroçar, ou lançar para a estratosfera, ou afundar nas profundezas do mar, materiais que de outro modo poderiam ser usados para tornar as massas demasiado confortáveis e, por conseguinte, a longo prazo, demasiado inteligentes.”


Hoje penso o mundo de forma diferente, e dou muito mais relevância ao tema da circulação da informação. Claro, os conflitos regionais continuam a interessar-me: basta ver o histórico de artigos deste blog onde já falei da Guiné-Conacri e sobretudo do Congo, sendo que estes dias estou também a acompanhar com preocupação à escalada de violência em Cartum no Sudão. Mas, tentando fazer justiça ao que não fiz em 2013, convido o leitor a acompanhar-me nesta crítica ao 1984, em que quero no focar na circulação, uso e tratamento da informação, bem como a sua relevância para o futuro da humanidade.


“o assustador era que tudo aquilo pudesse ser verdade. Se o Partido fosse capaz de intrometer a mão no passado e dizer tal nunca aconteceu a respeito deste ou daquele acontecimento, não seria isso mais aterrador do que a tortura e a morte?”


1984 é um livro assustador. Cada vez mais atual, retrata o percurso do ficcional Winston Smith numa sociedade em que contrariamente às aspirações positivistas e ideológicas do séc XIX e inícios de séc XX, não se criou uma sociedade perfeita mas sim uma ditadura perfeita: retrata uma sociedade que controla o indivíduo desde uma perspetiva externa (ação) até à componente interna (espírito); uma sociedade que perpétua as desigualdades sociais, promovendo o distanciamento entre a classe governante e a maioria da população; uma sociedade que altera o passado e a sua história conforme as conveniências do presente; uma sociedade que pretende criar uma nova língua de modo a moldar (mais ainda) o modo de pensar dos cidadãos; e, em última instância, uma sociedade que se não assente na obediência cega, assenta no medo e no horror. Winston ao longo da narrativa e nas 3 partes que compõem o livro vai sentindo o peso de tudo isto, começando na primeira parte com uma sensação de desconforto, passando para uma segunda parte para uma sensação de desafio à ordem estabelecida e terminando na terceira parte numa situação de castigo e repressão no eufemisticamente denominado “Ministério do Amor”. Por toda a parte a ação é acompanhada pela misteriosa figura do Big Brother, o Grande Irmão, ao qual ninguém escapa ao olhar atento.


“Sabemos que ninguém toma o poder com a intenção de abdicar dele. O poder não é um meio, é um fim. Não se institui uma ditadura para salvaguardar uma revolução; faz-se a revolução para instituir a ditadura. O objetivo da perseguição é perseguir. O objetivo da tortura é torturar. O objetivo do poder é ter poder.”


Nos romances que mais leio e trago ao blog, utilizo o passado como modo de entender o presente ou o passado mais recente, daí o meu particular gosto pela literatura do séc. XIX. Nesta distopia de Orwell, escrita em pleno século XX sinto que a cada ano que passa o livro vai ficando mais atual. Basta fazermos esta simples reflexão: as bases de dados informáticas sabem mais sobre nós do que a nossa família. Hoje não é concebível uma sociedade sem o acesso à Internet e, apesar de não acreditar numa figura central do Big Brother a olhar sobre nós, será que a nossa sociedade não está a passos largos a concretizar as profecias de Orwell? No trabalho que falei supra de Geografia C, abordei a temática das assimetrias regionais no acesso à informação – agora vou um pouco mais além, deixando um conjunto de perguntas: como estamos a tratar a informação? Será que temos dificuldades em aceitar a nossa história? Não temos a tentação de descrever os acontecimentos de forma que mais nos convém, mesmo que o resultado seja um todo absolutamente incoerente? E o que dizem ainda da alteração da língua?


“A invenção da imprensa, contudo, facilitou a manipulação da opinião pública, tendo o cinema e a rádio aprofundado esse processo. Com o advento da televisão e do avanço técnico que permitiu receber e transmitir em simultâneo e no mesmo aparelho, a vida privada chegou ao fim.”


Muitas vezes nós olhamos para filmes, séries e conteúdo, e sem recuar muito tempo, dizemos “Se fosse hoje, isto não seria feito”. E derivado do modo de ver a sociedade, entendo porque algumas pessoas têm receio e recusam o meu convite para participar neste blog. Dar a opinião é muitas vezes uma forte demonstração de coragem, mas é acima de tudo algo que nos deve ser muito querido e que devemos estimular, que é a nossa demonstração de liberdade! Por isso publico este artigo neste simbólico dia da História de Portugal para que esta pequena comunidade de leitores leve ao fim do dia algo para refletir.


Termino este artigo com uma saudação particular ao Honroso e Distinto Caaaaarliiinhos que gentilmente me emprestou esta magnífico livro que recomendo a leitura.


sexta-feira, 21 de abril de 2023

Boas métricas criam bons ambientes (Marco Garcia)

 



Prólogo: George Orwell na sua obra-prima “1984” oportunamente escreveu que quem controla o passado, controla o futuro e quem controla o presente, controla o passado. Cada vez mais vemos isso na nossa sociedade em vários campos sendo que as métricas e os números são por excelências um dos principais instrumentos de controlo da informação. Sabemos por isso o que implica controlar a informação, mas o que significa na prática o controlo de certo tipo de informação num determinado contexto? O novo artigo do Marco procura responder a essa questão, com a sua visão de gestor, para o campo profissional e pessoal. Sem mais demoras, novo artigo do Marco. (Luís Araújo).

  Os números são importantes, e boas métricas criam bons ambientes, mas querer avaliar comportamentos ou desempenhos humanos com base em números não só é desastroso e ineficiente, como também é imoral, e é precisamente para esse facto que eu quero chamar a vossa atenção. O Dr Spitzer refere que “as pessoas odeiam ser avaliadas porque normalmente as avaliações são usadas contra elas, mas as métricas são importantes, porque aquilo que tu medes, é aquilo que tu obténs”. Todas as organizações são baseadas em métricas, mas têm de perceber que se medirem as coisas erradas, vão obter as coisas erradas. Primeiro temos de perceber o que significa envolvimento, porquê que mais de 69% das pessoas empregadas não se envolvem no seu trabalho, e cerca de 80% dos colaboradores acreditam que trabalham para uma instituição que não cuida deles. Um dos motivos, tem a ver com o sistema de medição. Eu tenho de entender como funciona esse sistema, tenho de pensar no que vou medir, e se isso é correto medir. 
O fundamental é colocar as pessoas a fazer as perguntas certas acerca das medições. Existe uma coisa que temos de entender sempre que falamos em medições, eu posso provar aquilo que eu quiser, utilizando dados, basta apenas selecionar os dados que provam aquilo que eu quero, e isso é feito por quase todas as organizações. Funciona como um truque de magia, onde o mágico desvia a tua atenção para o que ele quer que tu vejas, e é precisamente isso que se passa hoje em dia nas nossas organizações: os gestores só te mostram os números que eles querem que tu vejas, daí ser tão difícil investir nas organizações hoje em dia, tu não consegues confiar nos números, porque, por detrás desses números estão pessoas, pessoas que tu não conheces, não conheces as suas crenças, o seu propósito de vida, o seu estilo de vida, os seus valores, os seus hábitos e costumes, e que são responsáveis por apresentarem esses números, tu só sabes o que elas querem que tu saibas, que é muito pouco, não sabes o suficiente para confiares nelas, e todos nós já percebemos que esses números tentam criar uma ilusão, que é precisamente o que se passa com os números de magia, tu não consegues entender como  eles o fazem, mas acreditas no que vês. O papel do mágico é ludibriar o público criando uma ilusão, assim como o papel do gestor, é compor os números de forma que pareça tudo bem. Com esta mentalidade de curto prazo, manipulando os números e as medições, é impossível confiar nesses números, é impossível investir nas empresas e nas organizações a longo prazo, 30, 40 anos ou mais.

Agora, existem 4 pontos chave que fazem as medições, e que fazem a gestão serem bem-sucedidas. O primeiro é o foco: tu tens de te focar naquilo que é correto, e existem tantas coisas corretas nas quais te podes focar, a chave é fazer as perguntas certas. Eu tenho de perguntar o que é mais importante para a minha eficácia na organização. A segunda coisa é a integração: todas as organizações são uma combinação de muitas partes diferentes, e portanto, temos de ter a certeza que estamos a focar-nos naquilo que é correto, e saber se essas coisas estão integradas, e interligadas. Uma das coisas que deves ter em consideração é que uma organização é composta por 20 ou 30 funções diferentes, e cada uma dessas funções tem as suas próprias métricas, e na maioria das organizações, essas métricas não estão relacionadas entre si, e isso é errado, isso é anti sistémico. Não existe integração do sistema de medição, e isso causa muitos problemas. A terceira é a interatividade, ou seja, como é que transformas os dados em informação. Porque o que tu obténs são números, e de seguida tens de dar significado a esses números, e podes colocá-los num gráfico para obteres informação, mas mesmo a informação não é suficiente, tens de transformar essa informação em conhecimento, e esse conhecimento em entendimento, até conseguires relacionar todos esses conceitos de forma a obteres sabedoria no longo prazo. Temos de entender que toda a informação, se for mal utilizada, transforma-se em desinformação, e temos de ter muito cuidado com isso. O nosso problema atualmente é que estamos fixados em obter dados e informação sem contexto, ou fora de contexto. E o quarto fator é o contexto: se não quisermos saber a verdade, e se não gostamos das métricas, então vamos tentar manipular essas métricas a nosso favor. Todos nós já fomos vítimas das avaliações de desempenho (desde a escola ao mercado de trabalho), e essa informação pode ser muito útil, mas normalmente é utilizada contra as pessoas. As avaliações de desempenho normalmente têm mais a ver com a personalidade da pessoa que faz a avaliação, do que com o próprio avaliado. Existe uma grande diferença entre métrica e avaliação. A palavra avaliação significa colocar um valor em alguém ou algo, então o que normalmente se faz é julgar o valor das pessoas: isso é errado, é anti-ético! Mas por detrás desses julgamentos de valor, não existem boas métricas, por isso, se olharem para as métricas que estão na base desses julgamentos, não são corretas, não o podem ser, porque estão a medir o que é errado, e quanto mais corretamente eu medir o que é errado, mais errado vou ficando. O genocídio é uma coisa errada de se fazer, mas eu posso fazê-lo muito corretamente, por isso, é preferível errar a fazer o que é correto, do que fazer corretamente o que é errado, a primeira tem a ver com valores, e a segunda com resultados. As avaliações de desempenho estão a avaliar resultados individuais de pessoas, e isso é errado, porque ninguém trabalha de forma individual, o teu trabalho depende do trabalho de outras pessoas, depende da forma como elas colaboram e se relacionam, depende da forma como todo o sistema está desenhado e interligado, o teu desempenho está dependente do sistema, e do ambiente onde trabalhas, tu não trabalhas num vácuo. O que eu quero que compreendam é que as avaliações podem ser bem vistas, desde que tenham por base boas métricas, e que estejam a avaliar processos e procedimentos, e não pessoas, com base em resultados individuais, portanto, temos de nos focar é nessas métricas que avaliam os processos e procedimentos de forma a melhorá-los e torná-los mais eficazes. 

Agora, existem dois tipos de métricas: uma é a tradicional, que avalia as pessoas individualmente e é composta normalmente por monitorar, reportar, controlar, justificar, julgar, promover, castigar e recompensar, e é normalmente para isso que utilizamos as métricas. Essa é uma das razões pelas quais as métricas recebem uma conotação tão negativa junto das pessoas, é por isso que as pessoas são tão defensivas acerca das métricas. No entanto existe um outro tipo de métrica que o Dr Spitzer chama de métricas positivas, que avalia os procedimentos e os processos, ajudando na criação de valor, e utiliza as avaliações para aumentar a visibilidade, a curiosidade,  para melhorar a comunicação e interligação entre as várias partes, para melhorar o feedback, para promover entendimento, para nos ajudar a prever o futuro, para aprendermos, para melhorarmos os processos, para  termos alegria e orgulho naquilo que fazemos, e encontrarmos satisfação no trabalho, de forma a promovermos uma prestação de contas positiva. Este modelo avalia os bons procedimentos e aqueles que podiam ser melhores, não avalia pessoas, nem julga pessoas. Infelizmente hoje em dia quase nenhuma organização utiliza este tipo de métricas, mas sim o modelo tradicional de medição. Portanto, o foco, a integração, a interatividade, e o contexto, são essenciais. 
O contexto das medições precisa ser positivo se as pessoas o vão usar corretamente e aprender com ele, porque o propósito das métricas deveria ser aprender e melhorar, não deveria ser monitorar e controlar pessoas. Temos  de confiar nas nossas pessoas, se não confiarmos nas nossas pessoas, aquelas que contratámos, segundo os nossos critérios, não confiamos em ninguém, e quem não confia, não é digno de confiança, e as pessoas que estão a ser monitoradas e controladas sentem que não confiam nelas, e sentem que não podem confiar nas pessoas que as controlam, porque têm algo que se chama, sentimentos e emoções, e como diz o povo “quem não se sente, não é filho de boa gente”. Aqueles que aceitam todo o tipo de faltas de respeito, abusos, e agressões psicológicas, e compactuam com os agressores, estão a contribuir para o aumento do cinismo e hipocrisia no local de trabalho, e o resultado é teres um conjunto de pessoas a trabalharem juntas, completamente alienadas, centradas nelas próprias, oportunistas, que só colaboram por interesse, que não confiam umas nas outras, a digladiarem-se diariamente como se estivessem numa arena, a trabalharem num ambiente altamente tóxico, desfuncional, regulamentado, monitorado e controlado, com os gestores de topo a apoiarem, a participarem, e a apreciarem de camarote este espetáculo decadente , como se tratasse de “business as usual”. É neste tipo de ambiente que queremos colocar os nossos filhos e filhas queridas? É neste tipo de ambiente que queremos que a nossa querida Mãe e o nosso querido Pai trabalhem? É neste tipo de ambiente que queremos que a nossa querida Avó e o nosso querido Avô trabalhem? É neste tipo de ambiente que queremos que todas as nossas pessoas queridas que nós amamos trabalhem? 

O problema é que as pessoas não sabem aquilo que querem, e durante todos estes anos têm sido motivadas pelo medo, pelo dinheiro e posição, a preocupação é o ter, e parecer bem, se soubessem o que queriam, uniam-se em torno de uma ideia mobilizadora, e não permitiam estes atentados à humanidade, que afetam todas as nossas pessoas queridas, as pessoas que nós amamos, as pessoas que nos amam incondicionalmente. A organização são todas as pessoas, independentemente do seu título ou cargo. A organização não é o CEO. O “ser” é mais importante que o “ter”. Temos de nos preparar para o legado que vamos deixar às gerações futuras. Foi este sentimento que mobilizou os nossos antepassados, e é com este sentimento que temos de continuar a trabalhar todos os dias para nos tornarmos pessoas melhores, fazendo o que é correto, ajudando a criar uma sociedade baseada em valores, e não em resultados.  

Acima falávamos de envolvimento dos colaboradores, e que o modelo tradicional de medição está a tentar fazer, é  criar o envolvimento dos colaboradores num contexto negativo, portanto, nós damos às pessoas alguns  benefícios, mas fazemo-lo num contexto tão negativo, que muitas daquelas coisas que falámos, já fazem parte da cultura. Quando temos um ambiente de monitorização, controlo, reporte, recompensas e castigos intrigantes, até mesmo as recompensas são manipuladas na sua natureza mais básica: Por isso o que nós precisamos é de uma cultura onde as pessoas queiram aprender e melhorar, e se nós conseguirmos criar isso, seria muito positivo, não só para as organizações, mas para a sociedade em geral. A chave está em criar ambientes positivos nas organizações, e para que isso aconteça temos de aprender algo acerca das pessoas, saber como funciona a sua mente, porque, muito do trabalho que desempenhamos hoje em dia é mental. Uma das características fundamentais da nossa mente, são as nossas emoções e os nossos sentimentos, e só recentemente começámos a equacionar essa possibilidade. Todo o século XX foi ocupado com o estudo do raciocino, porque pensávamos que era isso que nos distinguia dos restantes seres vivos, e criámos  uma inteligência artificial com base no raciocínio, que de inteligente não tem nada, é pura manipulação de símbolos com base em regras algorítmicas e lógicas, porque, mais uma vez acreditámos e assumimos erradamente que já sabíamos tudo acerca da mente e que a função da mente era, pura manipulação de símbolos, mas hoje em dia, com o desenvolvimento da  neurociência, da epigenética, da psiconeuroimunologia, da neuroendocrinologia e da física quântica, já percebemos que isso não é verdade, e que a inteligência artificial, não é inteligente, mas é artificial, e se queremos entender algo acerca da inteligência humana, temos de entender os circuitos responsáveis pelas nossas emoções e sentimentos, temos de perceber como funciona o sistema nervoso central, e como ele se interliga e relaciona com o nosso corpo físico. Tudo isto contribui para a formação da nossa mente consciente.

Um dos primeiros grandes mestres a promover a cultura de melhoria e aprendizagem, ao invés da cultura do castigo e da recompensa, foi Jesus Cristo há mais de 2000 anos atrás. A única coisa que Jesus pretendia, era que os seus discípulos aprendessem e melhorassem para se tornarem pessoas melhores. A Bíblia fala de recompensa e castigo logo no início, com Adão e Eva, mas Jesus veio revolucionar este conceito, e ao invés de criar uma cultura baseada no castigo e na recompensa, ele criou uma cultura baseada na melhoria, no desenvolvimento, e na aprendizagem. Em vez de coisas como, o empregado do mês, deveríamos ter algo como, “as ideias do mês ou as boas ações do mês, as boas atitudes do mês”, baseadas em valores, e não em números. As pessoas devem ser celebradas pelas suas boas ações, não devem ser castigadas pelos números, os números têm de ser o resultado dos valores, não podem ser construídos á custa dos valores. Outro problema, é que os nossos gestores ficam satisfeitos  com números baixos, muito baixos, e as nossas empresas, as nossas organizações não conseguem ganhar escala, nem dimensão internacional, não conseguem competir com as maiores e melhores do mundo, e não é a cortar custos, nem a trabalhar mais horas ou mais rápido que isso se consegue, isso é o que temos feito nos últimos 20 anos, e não tem resultado, isso só se consegue redesenhando todo o sistema, de forma a  trabalharmos de forma mais eficaz, fazendo aquilo que é correto, e para fazermos o que é correto, temos de perceber algo acerca das pessoas. Ao contrário do que muitos pensam, nós não somos um país pequeno, e se efetivamente queremos tirar o melhor rendimento das pessoas, temos de fazer mudanças estruturais, e temos de começar a olhar para aquilo que as pessoas têm de bom, não para o que têm de mau, temos de saber algo acerca das pessoas, algo acerca dos seus valores, das suas crenças, dos seus sentimentos e emoções, e uma das coisas que precisamos saber, é aquilo que as motiva. “O reino de Deus está dentro de ti - Lucas (17:21) citado por Lev Tolstoi.


domingo, 9 de abril de 2023

Parte II – Os Miseráveis, Victor Hugo (1862) – Crítica

 



Frequentemente quando falo no blog com pessoas conhecidas dizem-me que os artigos do Marco são muito diferentes dos meus. E com razão, por dois motivos: o primeiro, porque vimos de meios diferentes e temos uma base de formação diferente; o segundo, e o mais evidente, é porque eu não tenho os anos de experiência profissional e de vida que o Marco tem. Se é verdade que o tempo não volta atrás, é igualmente verdade que não se pode comprar experiência, e há aprendizagens na vida que somente com o decurso do tempo se consegue alcançar.


“Morrer não custa nada; o terrível é não viver.”.


Senti isto com Victor Hugo: um livro funciona como retrato do modo de pensar e personalidade do escritor numa determinada fase da vida e num determinado tempo. Por isso, contrariamente a Nossa Senhora de Paris (que critiquei oportunamente aqui), n’os Miseráveis Victor Hugo mostra um nível de maturidade e de experiência de vida que não o podia ter feito na década de 30 do século XIX.


“Esta época há de passar e já está a passar: começamos a compreender que, se pode haver força numa caldeira, só pode haver poder num cérebro; dito noutros termos, não são as locomotivas que levam e arrastam o mudo: são as ideias.”.


Na parte I (disponível aqui) coloquei a questão sobre o que é a miséria humana. É algo que temos como garantido na vida, o sofrimento, e é frequente fazermos o exercício de comparar sofrimentos de uns com outros. O que senti precisamente nesta obra é que a resposta à questão sobre o que é o miséria humana faz-se sentir em incidências diferentes, de modos diferentes e em pessoas de classes sociais diferentes: a resposta a esta questão pode estar nas enormes desigualdades sociais e na pobreza extrema de dois órfãos parisienses que procuram num pedaço de brioche atirado ao lago do jardim do Luxemburgo algo que fosse para matar a fome; mas a resposta pode também estar no coração partido de um avô que quer voltar a reconciliar-se com o neto mas tarda em ganhar coragem para dar o passo necessário; e o que dizem também das emoções do amor de Marius e Cosette, que oscila entre momentos de euforia e desespero, tão próprio deste sentimento? Ou ainda em Jean Valjean, cujo peso de um passado cruel e injusto vem ainda acrescentar a solidão própria de um pai que educa uma pequena menina como filha e a vê partir da sua asa? E o que dizer ainda de Thernardier, o burguês falido cuja baixeza patrimonial é somente equiparada com a baixeza de caráter?


“O amor quase substitui o pensamento. O amor é um ardente esquecimento de tudo o mais. Quem é que pode pedir lógica à paixão? Não há encadeamento lógico absoluto no coração humano, como também não há figura geométrica perfeita na mecânica celeste.”.


No primeiro artigo, dei ainda destaque ao polícia fanático Javert, o qual após os acontecimentos tumultuosos em Paris no verão de 1832 e um novo confronto com Jean Valjean, tem um desfecho absolutamente surpreendente. Na verdade, Javert inicialmente foi caracterizado pela mente rígida e inflexível: nesta última parte da obra, em poucas páginas e em moldes absolutamente surpreendentes, Victor Hugo faz o leitor sentir empatia por este personagem que pela primeira vez na vida é esmagado pelo peso da consciência e é obrigado a refletir sobre o seu papel na sociedade enquanto figura de autoridade.


“O destino tem certos extremos que raiam o impossível e além dos quais a vida é um precipício. Javert estava num desses extremos. Uma das suas ansiedades era ser forçado a pensar. A própria violência de todas essas emoções contraditórias obrigava-o a fazê-lo. Pensar era, para ele, uma atividade inusitada e singularmente dolorosa.”.


Tanta coisa pode ser dita sobre esta obra magnifica. Em termos similares (embora com algumas diferenças) como Tolstoi escreve o Guerra e Paz, Victor Hugo, ao tempo com 60 anos, mostra com uma maturidade e enorme sabedoria que a experiência de vida numa França novecentista lhe deu refletir sobre temáticas acessórias mas complementares, desde o significado do uso do calão pelas classes que mais sofrem, à importância da conservação da identidade urbanística de uma cidade, a (i)racionalidade do aproveitamento e reaproveitamento de recursos, e, como quero destacar neste artigo, uma questão intemporal e muito relevante para os dias de hoje: como alcançar a prosperidade social? Foi na época da vida de Victor Hugo que serviu de advento às ideias política e suas interpretações que moldam (pelo menos ideologicamente), os partidos políticos da atualidade. Não tenciono no blog fazer comentário político ao Portugal de hoje, dado que a minha ideia com esta página é a de criar um espaço em que as pessoas possam livremente escrever e refletir e com base nisso tirar as suas conclusões. Mas não resisto em deixar no ar esta pergunta: qual o partido que se assume frontal e diretamente contra a prosperidade social? Deixo a minha resposta: nenhum. Cada qual, pelo menos ideologicamente, tenta caminhos diferentes para alcançar o mesmo objetivo.


"Uma das dolorosas ansiedades do pensador é ver planar a sombra sobre a alma humana e sentir nas trevas o progresso adormecido sem o poder despertar.”.


A segunda parte da obra nesta edição da RELÓGIO D’ÁGUA completa o terceiro livro, com o nome de Marius, o quarto livro que é o único que não tem o nome de um personagem e onde Victor Hugo começa a fechar a história, e o quinto e último livro com o nome do personagem principal: Jean Valjean. Pelo número de temáticas que aborda e pelo volume total da obra, este livro exige algum tempo de dedicação, e a compreensão implica alguma pesquisa sobre a História de França. É, tal como o Nossa Senhora de Paris, um livro que exige alguma força de vontade dado não ser uma obra que se consiga ganhar afinidade com os personagens nas primeiras páginas. Isso não quer dizer que não se chegue lá: aliás, os Miseráveis têm pelo menos 60 adaptações ao cinema, o que prova o cuidado e a capacidade que a escrita de Victor Hugo tem em agarrar o leitor ao enredo.


Disse na Parte I que estava a ler uma obra-prima: e agora volto a dizer e confirmo. Os Miseráveis, por tudo o que aborda, pelo seu emocionante enredo (sobretudo o seu final que é uma verdadeira montanha-russa de emoções), por Victor Hugo ter conseguido transmitir toda a mensagem que tinha em mente – é um livro absolutamente excecional e que recomendo vivamente!


“São estas as verdadeiras felicidades. Não há alegria sem estas alegrias. O amor é o único êxtase. Tudo o resto chora. Basta amar ou ser amado. Não peçam mais nada depois. É esta a única pérola que podemos encontrar nos caminhos tenebrosos da vida. Amar é uma consumação”.