sábado, 2 de maio de 2026

A besta humana (1890) de Émile Zola






“Há muitas coisas que gostaríamos de fazer e não fazemos, porque ainda são as mais convenientes”


Começo este artigo a invocar as minhas memórias de aluno de licenciatura em dois momentos distintos: por um lado, recordo que numa das primeiras aulas de Direito Penal o assistente, em jeito de introdução à disciplina, mencionou algo que depois procurou disfarçar, a ideia que em regra a todas as pessoas ou a quase todas as pessoas já lhes passou ou pode ter passado a cabeça alguma ideia homicida; e, por outro lado, recordo também, que no âmbito da disciplina de História das Ideias Políticas quando estudamos Hobbes e a sua obra de referência Leviatã, a escolha do título não foi inocente. O Leviatã na mitologia é um monstro, e muito da filosofia política de Hobbes consiste na alegoria do homem como um ser profundamente maldoso e, como tal, defendia uma ideia de Estado cujo fim era no fundo conter a maldade humana (numa lógica de conter o monstro), mesmo que para isso tivesse de assumir uma feição altamente repressiva.


Partindo deste ponto, A besta humana foi um livro que me surpreendeu pela positiva. Com a ação passada na França do século XIX, numa fase da História de enorme progresso tecnológico, que no livro tem como expoente principal o setor do transporte ferroviário (em particular a linha entre a cidade normanda de Rouen e Paris), o livro foca-se fundamentalmente em três personagens: o casal Roubaud e Séverine, com um início de enredo bastante intenso e algo imprevisível para o estilo de escrita que estava habituado da época (cujos livros normalmente “demoram a arrancar”), e Jacques, o condutor do comboio. Numa escrita bastante sucinta e bem segmentada, características gerais do livro como um todo, os dois primeiros capítulos arrancam numa velocidade alucinante, num caldo literário que mistura política, crime, ciúme, amor, família, dinâmicas testamentárias e progresso tecnológico. À medida que progredimos na ação, depois de um início muito intenso, verificamos que o desenrolar da história não é nada previsível ou, se se preferir, lógico/racional, o que nos leva a considerar um conjunto de questões sobre a natureza humana, desde logo se e até que ponto é possível suprir a natureza malévola ou cruel do homem e, se no debate da qualidade da natureza humana, um debate milenar com várias teses, se essa qualificação/natureza muda consideravelmente face ao enorme progresso tecnológico. De certa forma, esta variável da evolução tecnológica acaba por dar a sua componente de (maior) atualidade ao livro, sendo profundamente pertinente e prática hoje, na atual era da consolidação das Redes Sociais e de um certo progresso tanto dos algoritmos como da Inteligência Artificial.


Em termos sumários o livro leva à reflexão sobre:

  • Se a natureza humana é boa ou má?

  • Se essa natureza piorou com a robotização/evolução tecnológica?

  • Ou se, pelo contrário, a nossa natureza manteve-se tal como estava, tendo sido só eventualmente alterada no sentido de aceleração (aceleração humana, tentando estar em linha com a aceleração da máquina)?


“Ah!, é uma bela invenção, não há dúvida. Anda-se depressa, aprende-se mais… Mas os animais selvagens não deixam de ser animais selvagens e, mesmo que se inventem máquinas ainda melhores, o animal selvagem continuará presente.”


As temáticas com que o livro arranca continuam sempre presentes em todo o seu enredo, com voltas e reviravoltas altamente surpreendentes. 


Um outro aspecto, talvez mais lateral, que gostaria de destacar deste livro é, como não poderia deixar de ser, a crítica satírica que faz à justiça e à investigação criminal, tendo da figura central o juiz de instrução Denizet. Na minha opinião este personagem gera emoções mistas: para quem olha num prisma mais pessoal, claramente este juiz passava por “cromo” ou “totó” do livro; mas, para quem tem mais proximidade com o sistema judicial, e em particular com a investigação criminal, o juiz Denizet acaba por ser uma triste caricatura do funcionamento deficiente da justiça, não só na qualidade da investigação que ele conduz, como também pelo modo como lidar com externalidades fora do tribunal (nomeadamente políticas e de progressão de carreira), o que nos deixa, de novo a questão de pensarmos se a nossa sociedade moderna mudou assim tanto quanto isso. Arriscaria a responder que, face ao teor atual do livro, talvez não. Esta crítica acaba por ser também transposta para os mass media, sobretudo os jornais, que procuram no sensacionalismo a sua promoção lucrativa, a mãos dadas com uma agenda não necessariamente inocente.


Era um triunfo para o juíz de instrução  Denizet, porquanto não se poupavam elogios, no mundo judicial, quanto à maneira como ele levava a bom termo esse processo complicado e obscuro. uma obra prima de fina análise, dizia-se, uma reconstituição lógica da verdade, uma autêntica criação, na verdade.”.


Em comparação e em referência ao artigo anterior que escrevi sobre Náná, outro livro de Zola, pessoalmente achei que A besta humana é um livro mais completo e melhor escrito: não é volumoso, está bem segmentado em termos de capítulos, a leitura é agradável, e aborda eficazmente todo um rol de temáticas díspares, o que me faz recomendar a sua leitura.


“A pressão do poder e as violências dos perfeitos forneciam-lhe diariamente outros temas para os artigos indignados; de modo a que, deixando os jornais de se ocupar do caso, este não voltou a alimentar a curiosidade apaixonada da multidão. Já nem sequer se falava dele.”