terça-feira, 30 de dezembro de 2025

“Náná”, de Émile Zola (1880) - Crítica

 



"Se vocês não fossem tão estupores, seriam tão amáveis com as suas mulheres como connosco; e se as suas mulheres não fossem tão prognósticas, dar-se-iam, para vos guardar, o trabalho que nós temos para os conquistas a vocês."


Recentemente, na companhia de um colega e amigo de trabalho, descobri um alfarrabista relativamente bem localizado em Lisboa , e como apreciador de livros, não resisti a sair de lá sem levar qualquer coisa. Por sugestão , um dos livros que levei foi este clássico de Émile Zola que passo agora a criticar.


O primeiro impacto que tive da sua escrita de Émile Zola foi um pouco a sensação de dejá vú em relação a Eça de Queiroz: o estilo de escrita, as descrições (em alguns momentos, se calhar em demasia), a maneira como retrata a alta sociedade do século XIX, e o sentido de humor, deixou-me convicto de que Eça se inspirou muito em Zola.


Indo ao livro propriamente dito, este acompanha Náná, que surge na obra como uma atriz de fraca qualidade mas que se destaca pela sua sensualidade. A primeira ideia que passa é algo que hoje em dia podemos associar, independentemente da nossa forma de ver e estar na vida: a beleza e o sexo vendem. E dessa forma Náná causou furor na sociedade parisiense, levando à loucura várias famílias que dela se aproximaram.


Com o evoluir da história, ficamos também com a sensação de que estamos também perante um livro profundamente psicológico, analisando a personagem principal, sobretudo no segundo “arco” em que entra numa relação de dependência e violência física com outro homem, fazendo pensar o porquê de uma pessoa se colocar e quase insistir em permanecer nessa situação, até que, chegamos a um terceiro arco da história que marca um ponto de viragem: vários homens , todos atraídos por Náná, num misto de obsessão e pouco amor próprio, entregam-se a uma paixão descontrolada, que Náná aproveita para deles extrair vantagens. Todos esses homens, de uma forma ou outra, proporcionam a Náná uma vida de excessiva luxúria e dependência, em prol um ideal de mulher que eles tinham da sua amante que, na realidade, nunca existiu, com consequências catastróficas para cada um deles . 

"Não havia amor onde não havia estima."


Na minha opinião, este livro destaca-se por explorar bem o psicológico do sexo e, de alguma forma, das relações/casamentos. Embora seja mais crítico das mulheres (representadas na personagem principal), não deixa de expor à crítica e ao ridículo os vários homens que se cruzam com Náná. De certa forma, este livro mostra-nos também um poucos as várias posições e vários cenários possíveis nas interações românticas/sexuais, usando a figura da Náná um pouco como exemplo de que em determinados contextos as pessoas podem-se tornar quase irreconhecíveis e agir ou, se se preferir, viver a vida de forma totalmente diferente. E numa era como a nossa em que as pessoas tendem a extremar ideia e preconceitos, este livro pode ser um bom ponto de início de um debate mais equilibrado, ao expor a irracionalidade de uma forma eventualmente um pouco mais racional.


E com este artigo termino o ano de 2025, que embora menos ativo aqui no blog, foi um ano muito positivo a nível pessoal, profissional e da minha escrita. Desejo a todos os meus leitores um excelente ano de 2026!


segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Guia de leitura - O abalo nas convicções (2)


 

De forma a encerrar este meu fim de ciclo com a publicação do meu segundo livro, escrevo, no seguimento do primeiro guia de leitura sobre o Qi Qi, um artigo agora sobre o abalo. Este artigo é desafiante, pois é minha responsabilidade encontrar um equilíbrio e produzir um artigo que chegue diretamente às pessoas que já leram o meu livro e a eventuais pessoas que tendo o exemplar ainda não o fizeram, mas podem, com este texto renovar (ou eventualmente ganhar) algum nele algum interesse. 


Este artigo vai ser também um pouco diferente do anterior, dado que tive a oportunidade de partilhar no Facebook um texto de apresentação e história d’O abalo nas convicções, por isso este post porventura será um pouco mais técnico.


Como jurista que se preze, não resisto em começar a abordar os aspetos formais do meu livro, antes de ir para aspetos mais materiais da obra, em torno dos personagens mais importantes.


No texto que escrevi no Facebook tive a oportunidade de revelar que o abalo inicialmente foi concebido como texto dramático e que só anos depois o converti em prosa. No entanto creio que consciente ou inconscientemente os locais, as interações entre os personagens presentes e parte dos acontecimentos mantiveram-se. Por isso o livro intercala rapidamente nos seus capítulos o foco em personagens diferentes em locais diferentes (com alguns acontecimentos a ocorrer ou ao mesmo tempo ou com muito poucas horas de intervalo), sendo que começa simbolicamente a encerrar a história e a aproximar os intervenientes para a mesma “cena” a partir do capítulo 8, tornando de certa forma interessante a forma de combinar dois estilos de escrita diferentes.


Continuando em aspetos formais, e por inspiração num anime japonês chamado “Classroom of the Elite” coloquei, no início de cada capítulo, uma citação de alguma forma relacionada com os acontecimentos que iriam ocorrer. Um dos aspetos interessantes do anime que mencionei, que no fundo é uma série estudantil numa escola secundária de elite semi futurista japonesa é a de começar todos os episódios com uma citação forte de um grande filósofo, cientista ou autoridade literária (como Confúcio, Horácio, Nietzsche, Adam Smith, Schopenhauer, Maquiavel, entre outros). Com isto achei interessante o modo como citações de pessoas de eras tão distintas, da Antiguidade à era Contemporânea, e com bases axiológicas tão diferentes, acabam por ligar com os acontecimentos daquela escola! Claro, estou muito longe das bases científicas dos autores que citei, mas como dediquei (e dedico) algum do meu tempo livre à leitura, achei que pudesse ser interessante fazer o mesmo no abalo, mencionar citações de vários livros que li e relacionar com os acontecimentos daqueles capítulos. De certa forma, acho que o conhecimento da pessoa humana pode ser algo que pode unir todos, e se conseguir mostrar como algo que foi escrito em França, nos EUA, na Rússia, na Hungria, em Cuba e em Portugal pode ter importância prática, ou, se se preferir, estar estritamente relacionado com os acontecimentos do nosso dia-a-dia, essa pode ser uma forma interessante de promover a boa leitura. A literatura de qualidade, a meu ver, consegue fazer isso mesmo, e creio que os bons livros podem ser um fator de união entre todos, união essa tão necessária (e em falta) nesta era que nós vivemos, cada vez mais caracterizada pelo sectarismo. 

Entre as várias citações (e porque como alguém escreveu que “quando queremos somos os mais patriotas do mundo”), optei por não mencionar nenhum autor português “mainstream”, tendo decidido citar simbolicamente no epílogo um pequeno autor nacional que, a meu ver, tem imensa qualidade. Fi-lo não só para divulgar um pouco o seu nome e a sua obra, como também o fiz por crítica: infelizmente acho que a nossa sociedade ainda valoriza pouco o tremendo talento literário que existe no nosso país, e que para quem quer entrar neste mundo da escrita, o talento nem sempre é tudo e as oportunidades não são as mesmas para todos. Por esse motivo, permiti-me esta pequena crítica.


Já quanto à capa do livro, feita pela Beatriz Martins, tem o seu propósito e referência: a primeira, e mais importante, foi a de lhe dar a chance de, mais uma vez, ser ilustradora publicada, pois tal como disse a propósito dos escritores, também estou convicto de que existe muito talento escondido no mundo do desenho, e se tiver a chance de o divulgar (em linha com o que fiz com a Daniela e a Matilde no Qi Qi), parece-me estar a fazer uma boa ação. Quanto ao desenho em si, a capa foi inspirada na imagem de referência do jogo de Playstation 2 “Timesplitters” (dentro da criatividade que concedi, e a meu ver de forma certeira, à Bea), tendo aproveitado para partilhar a minha visão sobre a fisionomia que imaginei para alguns dos personagens centrais da obra, bem como a imagem do pato (nunca esquecendo toda a importância, mensagem e de certa forma mitologia que os animais têm para a nossa sociedade). E com esta nota concluo os aspetos formais deste meu guia de leitura, passando agora o foco a aspetos materiais dos personagens


Inevitavelmente tenho de começar por Jacinto Carvalho, o professor de História central nestes quatro dias do livro. O nome foi inspirado num amigo de infância (com as devidas diferenças) e o aspeto e personalidade foram uma mescla entre um outro falecido amigo e um antigo professor, e achei pertinente dar-lhe a centralidade do livro um pouco em linha com o personagem Stepan do livro “Demónios”. Mas com o tempo, tal como eu, creio que o Jacinto Carvalho amadureceu e chegou a patamares acima dos que eu esperava. Jacinto é um estudioso, alguém que adora, vive e respira História, e talvez por isso tenha um humanismo contagiante. Mas Jacinto, um pouco contra a maré da nossa era, é um otimista pois diverte-se conscientemente com todas as suas contradições e paradigmas, e talvez isso seja o que o torna mais peculiar - na nossa era, se pensarmos no que lemos, vemos e ouvimos na televisão, a tendência é para se encarar o futuro de forma pessimista, como algo assustador e incerto, e mesmo tendo motivos para isso, Jacinto opta por ser uma referência de otimismo, curiosidade (às vezes até um pouco infantil) e, à sua maneira, por ser um ponto de equilíbrio para quem o conhece. Na minha opinião pessoas como Jacinto Carvalho são precisas na sociedade de hoje, pessoas que pensam e apelam à meditação, pessoas que estimulam o espírito crítico, pessoas que apelam ao equilíbrio, pessoas que tentam ser um exemplo positivo e adotar uma postura construtiva, tudo isso são qualidades que creio que muitas vezes eu próprio estou longe de as ter. Por isso, Jacinto Carvalho tornou-se uma referência na minha vida e (espero) que em alguns dos meu leitores.


Passando ao Vasco, foi outro dos personagens que sempre foi central desde o início do abalo nas suas várias encarnações. Quis com ele tentar criar um personagem que fosse produto da educação de Jacinto. Não por acaso é um estudante universitário e mesmo sendo filho de Jacinto, as interações entre ambos naqueles quatro dias são escassas (como é característico de muitos na sua pele com aquela idade). Vasco começa como um jovem de bom coração, idealista, romântico (ainda que demasiado racional) e com vontade de deixar a sua marca no mundo, e vai progredindo na história como o estudante que atinge os impactos da vida adulta em tudo o que é difícil, irracional, belo e cruel. No livro, Vasco vive a sua grande experiência amorosa na idade adulta e progride ativamente como alguém com sede de conhecimento, o que acaba por ser a sua forma de contrariar a revolta face ao estado do país. Vasco oscila com os seus pensamentos em todo este emaranhado de contradições, mas é exatamente essa contradição que faz dele mais humano. 


A Cristina Croquetes é provavelmente a personagem que mais mudou nas várias versões do livro e acabou por ganhar uma profundidade tal que merecia um livro focado nela. A Cristina tem os traços físicos de uma mulher que aprecio e a sua metamorfose no livro é um dos meu principais motivos de orgulho. Ela não é a mulher perfeita, tem o seu temperamento e estou plenamente convicto de que não é qualquer homem que vai ter interesse por uma mulher como ela, mas quis com a Cristina construir aquilo que admiro numa mulher, mais do que a aparência, a força. Por tudo o que ela passou (e foi imenso, já que o livro é bastante cruel com ela) ela permitiu-se chorar e ter medo, mas ainda assim, talvez por influência da amiga Jéssica e, mais do que isso, por ter encontrado capacidades que ela própria achava não ter, conseguiu ter a energia para continuar a sair à rua, e deu a si mesma a chance de arriscar de novo ao entrar numa relação saudável, e recuperar a sua ambição de querer fazer diferente e construtivo com a sua vida. Aquela mulher que no início todos riam e apontavam o dedo, acabou por se transformar (ou para muitos até revelar-se) como uma mulher muito competente e respeitada. Não foi fácil para mim criar a Cristina, mas estou muito satisfeito pelo resultado. 


Afonso Machado, Hélio e Alexandre são o produto da influência (direta ou indireta) de Jacinto Carvalho e o modo de como a humanidade é complexa. Todos se consideram pessoas decentes, e cruzam-se na vida uns dos outros como convictos disso mesmo, mas quis com eles demonstrar como no contexto certo o homem é capaz do seu pior, não importa a sua origem, influências e cadeias de respeito. Afonso Machado, o empresário sombrio, Hélio, o passador de droga, e Alexandre, o assistente técnico com muito ressentimento acumulado vão ser fundamentais para a conclusão dos eventos no abalo.


O Rogério é um pouco o típico “homem de café” que todos conhecemos, o vencedor do Totoloto à segunda-feira, o treinador de bancada e o moralista. É um homem simples, de trabalho árduo, mas um pouco à semelhança de muitos de nós, guarda a sua dose de frustração com a nossa sociedade. A minha ideia foi a de mostrar com ele que, apesar de muita gente ter o seu tom por vezes demasiado grosseiro e pelas suas tentativas de tentar chegar ao nível de Jacinto, que muitas vezes as nossas ações não condizem com tudo o que dizemos e mesmo nesse tipo de pessoas existe uma grande dose de decência e honradez: apesar de tudo o que se possa sentir, a maioria das pessoas tem aversão à violência e à crueldade, e por muito que reprimamos, todos temos direito às nossas emoções.


Finalmente, e encerrando simbolicamente com Teodósio Selva, ele é inspirado no dono de um café que costumo frequentar e o seu nome é baseado num outro de amigo de infância. Ele funciona na história como um ponto de referência de conforto e amizade, alguém com quem toda a gente no grupo se sente à vontade e que podem contar. Como bom português, sabe receber e sabe ouvir, sendo um grande observador da natureza humana em todo o seu esplendor. Quando ganha confiança, Teodósio Selva é capaz de uma proximidade e  assertividade extraordinárias.


Quero terminar estes meus guias de leitura para agradecer profundamente aos leitores do Qi Qi e do abalo, aos leitores do blog e aqueles que direta ou indiretamente seguem este meu “hobby” da escrita. Para os mais curiosos, de momento não estou a escrever mais nenhum livro, e não sei se o voltarei a publicar, mas certamente que vou continuar a escrever, mais não seja aqui no blog quando (e se) sentir que tenho alguma coisa a dizer que me parece pertinente.  Até lá, independentemente do que seja, convido todos a cultivarem o seu lado criativo, seja para o que for, e a divertirem-se com a obra escolhida, que no fundo é o mais importante na arte!



quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Guia de leitura – Qi Qi, o golfinho chinês (1)


Volto ao blog numa fase da vida adulta em que me sinto plenamente concretizado em termos literários, pois escrevi e publiquei o que pretendia ao fim de muitos anos.

Agora com a experiência de dois livros publicados, quero falar em particular para as pessoas que leram os meus livros, e quero começar com os leitores do Qi Qi, o meu primeiro livro, lançado numa escola primária em Leiria. Escrever um livro é mais do que a tarefa de inspiração quando pegamos no teclado e procuramos colocar por palavras uma mensagem que queremos transmitir: é um enorme processo de introspeção, memórias soltas, confissões e vivências pessoais. Provavelmente por isso nunca poderão existir duas escritas iguais, precisamente porque a escrita com identidade não se pode separar da complexidade do escritor.

Quero demonstrar isso mesmo, é válido até para os livros mais simples. O livro do Qi Qi e tudo aquilo que pesquisei e aprendi sobre o golfinho baiji, espécie hoje tida como o mamífero aquático mais raro do mundo, não fugiu do que referi. Por esse motivo quero mostrar que naquelas quatro páginas de word escondem por detrás muito mais simbolismo.

Os animais são um tema comum nos primeiros livros e nas primeiras histórias que ouvimos. As crianças que conheço cresceram com pequenas histórias de animais, como os sete cabritinhos, os três porquinhos ou, para quem é mais adepto da Disney, filmes como o Rei Leão e séries como o Timon e Pumba. Hoje certamente que existe mais conteúdo de animação para os mais novos que desconheço, mas arrisco dizer que os animais não deverão estar muito longe. Talvez por esse motivo, quando estava na escola primária e aprendia os primeiros temas relacionados com o ambiente, aprendia com gosto e interesse. Acredito que, de uma forma ou de outra, as crianças gostem de aprender, embora nem todas da mesma forma ou as mesmas matérias. 

Como animal em vias de extinção, um exemplo típico e comum (até pelos enormes esforços que foram feitos para a sua conservação e reprodução) é o panda, símbolo não só do conhecido canal infantil português, como da China, o país tão longínquo e misterioso e, como tal, amplamente desconhecido para uma criança crescida em Leiria.

O baiji entrou na minha vida pouco tempo depois da escola primária. Creio que em 2005 ou 2006. Estava em casa da minha avó, num almoço de família ao domingo, distraído a ver televisão enquanto os adultos continuavam na mesa na conversa deles. De repente, quis talvez o destino (ou a sorte), que tivesse aparecido uma notícia: o golfinho baiji, um golfinho que se achava extinto e que só vivia num rio na China foi avistado! Dava para ver que era (e é) um animal muito raro. Várias coisas passaram pela minha cabeça: há golfinhos que só vivem em rios (pois só conhecia os do mar e, no máximo, aqueles que iam ao estuário do rio Sado)? Há animais que só vivem em certos sítios? Há notícias de extinção de animais assim tão recentes? Eu queria saber mais, aqueles 20 segundos de notícias colocaram-me todas essas questões! Felizmente nesses anos a internet como a conhecemos e a massificação dos computadores começou a chegar (de certa forma um pouco como a conhecemos hoje), e com a ajuda da Wikipedia descobri muitas coisas sobre este golfinho: que os seus números na natureza tinham caído para números muito baixos; que houve um golfinho que viveu 20 anos num aquário em Wuhan chamado Qi Qi e que morreu em 2002; e que em 2006 houve uma grande expedição de biólogos e cientistas pelo rio Yang-Tsé em busca de golfinhos sobreviventes para dar início a um intensivo programa de recuperação da espécie mas que, em 6 semanas, não foram avistados nenhuns, antevendo por isso uma possível extinção. Desde então aqui e ali têm sido noticiados relatos de avistamentos de baijis no rio Yang-Tsé, alguns até relativamente recentes, mas a comunidade científica reage de forma bastante cética: se admite que possam existir alguns exemplares na natureza, acha muito pouco provável (em função do seu número, idade e estado do rio Yang Tsé) que a espécie consiga recuperar, considerando-a por isso funcionalmente extinta.

Nos anos seguintes aqui e ali ia procurando notícias mais recentes do baiji, esperando um desfecho diferente do pessimista prognóstico, mas a notícia que quis (e ainda quero) ler até agora nunca apareceu. Não obstante, todo o tempo que investi no baiji não foi em vão. 

Recordo muito bem que aos 14 anos estava numa situação académica complicada, em grande risco de reprovar o ano. Mas de novo, quis a sorte ou o destino que na disciplina de francês, perto do final do ano letivo, tivéssemos de fazer um pequeno trabalho de investigação sobre alguma temática relacionada com o ambiente. Nesse contexto achei que podia ser interessante e fora da caixa falar um pouco sobre o golfinho baiji e todo o histórico que acompanhei até à data. Sendo um tema amplamente desconhecido para a comunidade escolar, o trabalho foi muito bem recebido e muito bem avaliado. Arrisco até a dizer que talvez o baiji tenha me salvo do chumbo no 9º ano!

Os meus 14 anos tiveram outro curioso momento, importante também para o livro: naquela altura os meus pais instalaram uma box da Meo em casa, as primeiras que eu conhecia que permitiam gravar programas (mesmo com a TV desligada). Então com muita frequência colocava a gravar programas que passavam de madrugada, geralmente documentários, peças jornalísticas de investigação, programas de História e Geografia, e descobri muita da programação que passava no canal português da National Geographic, Odisseia, canal História - até ao fim do meu secundário consumi imenso conteúdo assim, programas sobre segunda guerra mundial, sobre a Coreia do Norte, sobre obras de engenharia peculiares, sobre acidentes de avião, e até histórias de pessoas presas no estrangeiro. Entre todo esse conteúdo houve uma série que nunca me esqueci chamada “Os rios e a vida” e gravei um episódio sobre o rio Ganges, rio sagrado para os hindus. Achei interessante o programa ter começado com a mitologia desse rio, que nos conta que o Ganges foi um rio nos céus e que os deuses o colocaram na Terra para garantir a prosperidade daquelas terras, sendo que foi colocado simbolicamente a nascer na cordilheira mais alta do mundo, os Himalaias. Quando escrevi o Qi Qi achei interessante aproveitar esta história para o livro (o que veio a ser decisivo para o seu final), admitindo desde já que privilegiei uma pequena criatividade ao invés do rigor: o baiji vivia no rio Yang Tsé e a matriz cultural da China é uma mistura entre o budismo e o confucionismo; a mitologia do rio Ganges é da cultura hindu, mais presente na maioria dos países do subcontinente indiano.

Aos 20 anos, já como aluno de Direito em Lisboa e com um nível de inglês confortável, continuei a pesquisar sobre o baiji, na esperança de novas notícias. Com outro tipo de informação acessível na internet (e não disponível em português) descobri que um biólogo inglês chamado Samuel Turvey (um dos biólogos que acompanhou a expedição de 2006 ao rio Yang-Tsé em busca de golfinhos) que escreveu um livro sobre a extinção do baiji, deixando o seu contributo para a História dos acontecimentos em torno das causas da possível extinção, bem como dos problemas do chamado mundo da conservação e meio ambiente. Inevitavelmente dei por mim a encomendar esse livro no ebay, “Witness To Extinction - How We Failed To Save The Yangtze River Dolphin”. Neste livro descobri a existência de uma lenda chinesa envolvendo o baiji: há várias versões sobre o início (algumas talvez demasiado pesadas), mas sempre envolve uma criança que estava a ser levada forçada para algum sítio e que, para escapar do terrível destino que lhe esperava, saltou em desespero para o rio Yang-Tsé, numa parte particularmente profunda. Perante a situação, um grupo de baijis foi imediatamente acudir a criança, tendo-a adotado e transformando num golfinho. Essa lenda deu-me a ideia que um dia poderia ser interessante escrever um conto infantil sobre o baiji, já que na mitologia chinesa este golfinho tinha não só características divinas, como era um animal amigo das crianças! Mas o livro de Samuel Turvey tinha mais do que isso: contava também que nos anos 80, pescadores no rio Yang-Tsé capturaram acidentalmente uma pequena cria macho de baiji, particularmente ferido: tendo sido acolhido com um prognóstico pessimista por um grupo de biólogos, as feridas daquela cria foram tratadas com base em plantas medicinais chinesas e o pequeno golfinho sobreviveu, tornando-se na principal atração daquele Instituto em Wuhan. O nome dado a esse golfinho, sem surpresa, foi Qi Qi e ficou então decidido que esse seria o nome que iria dar ao personagem principal da minha história (e que acabou também por ser o nome do meu livro!).

Quando no final de 2022/início de 2023 dei o passo decisivo de escrever este conto infantil, sentia que estava bloqueado: o tipo de escrita que um conto infantil envolve é muito diferente do que estava habituado, e com a quantidade de referências que tinha, o desafio de criar algo simples e apelativo para uma criança, o que foi algo que me fez sentir muitas vezes inseguro. Então para ultrapassar essa barreira parei e pensei em mim, no que eu era como criança e no tipo de coisas que gostava de ler e aprender: talvez muitas das referências não tenham ficado tão óbvias, mas se conseguisse transmitir um pouco de tudo o que deu origem ao Qi Qi, sentir-me-ia realizado. Mas isso não chegava: da minha infância de Leiria guardo os meus mais antigos amigos, muitos dos quais com quem ainda hoje tenho relação próxima e falo com frequência. Como todas as relações, as amizades são maravilhosas mas têm momentos em que muitas vezes temos de fazer aquilo que, mesmo não sendo o mais agradável ou bonito, é o certo a fazer. Porque se temos um amigo queremos o seu bem. E por esse motivo o foco central da história acabou por ser a amizade do Qi Qi com o Gil, o panda, ambos tão diferentes, mas verdadeiros amigos, e isso, para mim é maravilhoso. Não resisto também em partilhar que, em parte, a inspiração para a interação entre o Qi Qi e o panda Gil foram os 5 minutos finais de todos os episódios da série Boston Legal, onde dois melhores amigos tiravam o final de dia para celebrar a sua amizade, com um copo de whiskey e um charuto, partilhando os seus sentimentos, inseguranças, e vulnerabilidades. Talvez, de novo por sorte ou destino, uma recente amizade minha (já surgida em contexto profissional) fosse também decisiva para que o projeto do Qi Qi chegasse ao fim, sendo que este livro foi um projeto conjunto entre mim e as filhas do meu amigo Marco, a Daniela e Matilde, que gentilmente (e com imensa qualidade) aceitaram o meu desafio para ilustrar este livro, o qual espero que esteja à altura do seu talento para desenhar. E foi assim que nasceu o livro “Qi Qi o golfinho chinês”.

Quero acabar o meu texto a manifestar o meu maior agradecimento aos leitores do Qi Qi, porque é para eles que procuro transmitir a minha mensagem e todas estas referências que aqui mencionei.


sábado, 1 de março de 2025

O conflito regional do Kivu (República Democrática do Congo)

 

Em finais de 2018, quando criei o blog, o meu foco principal, e durante muito tempo, foi a República Democrática do Congo. Entre 2018 e 2019 acompanhei com grande preocupação a transição de poder entre Joseph Kabila e Félix Tshisekedi, e pontualmente escrevi artigos sobre alguns focos de instabilidade, desde logo no Kasai e no Ituri. Mas propositadamente ficou por analisar aquele que é provavelmente o conflito de maior dimensão e mais impactante na República Democrática do Congo: o Kivu, sobretudo os territórios de Masisi, Rutshuru e Walikale.

Assumindo desde já uma tarefa difícil de tentar simplificar um conflito com origens desconhecidas, mas que assumiu particulares proporções cruéis desde 1998, é chegada a hora de assumir o risco e tentar falar aqui no blog um pouco sobre o Kivu.


Kivu, nome da região, é oriundo do nome do lago vulcânico que marca a fronteira da República Democrática do Congo com o Ruanda, sendo um dos chamados “Grandes Lagos” em Africa, juntamente com o lago Vitória, na zona do Uganda, bem como do lago Tanganica, entre o Congo, o Burundi e a Tanzânia.

A legitimidade histórica sobre a povoação originária do Kivu (aquando da chegada dos belgas nos finais do século XIX), é discutível: alias, muitas das milícias que operam na região argumentam serem os verdadeiros representantes dos nativos da região, que aquando a chegada dos europeus viviam entre um conjunto de tradições e estruturas que, não sendo réplicas, diria que na ótica de um europeu faziam lembrar a Europa medieval, com várias entidades diferentes, alianças regionais diferentes e feudos complexos. Há, contudo, evidências históricas que a região era cobiçada pelos vários reinos centro africanos, atraídos pela sua tardia exploração agrícola e pelo seu subsolo. Existem até historiadores que consideram que os pesos das etnias, em função das várias vassalagens, cultos e seitas da região, assumiram maiores proporções a partido do momento da colonização belga, havendo registo de significativas mudanças no equilíbrio de poder na região (sobretudo na primeira metade do século XX), com a promoção da colonização do território de pessoas oriundas zonas diferentes (desde logo, pela chegada de muitos trabalhadores da região onde hoje é o Ruanda), alternando conforme conveniências políticas a classe dominante da região.

O período da colonização belga e o período pós-independência em 1960 trouxe uma diferença muito significativa na região e a entrada de novos atores: se os belgas administravam o Kivu baseados num sistema descentralizado, atendendo ao enorme mosaico cultural do país, o governo de Leopoldville (mais tarde rebatizada de Kinshasa) procurou de todas as formas uma administração do território centralizada, dando um contexto perfeito para a destabilização da região.

Os anos de Mobutu foram um misto da solução belga e da solução pós-independência: se inicialmente administrou o território via as elites locais instaladas, mais tarde procurou, em função do seu enorme apetite, centralizar para si e para a sua elite mais próxima de Kinshasa.

Foi neste contexto que eclodiram as duas guerras do Congo nos anos 90 (que tive oportunidade de analisar com mais detalhe aqui), sendo que chamo a particular atenção para a sua terceira e quarta fases (sensivelmente a partir de 1999): nem o Ruanda conseguia capturar Kinshasa e derrubar Laurent Kabila, nem Kabila e os seus aliados africanos tinham capacidade militar para expulsar as tropas estrangeiras inimigas. E desde então os exercícios dividiram-se e subdividiram-se em várias milícias, com fins diferentes e cada qual com a sua “legitimidade própria” e aquela que era uma guerra política transformou-se numa guerra económica, a qual perdura até aos dias de hoje: estando numa região vasta, com pouca infraestrutura e com uma enormíssima riqueza natural, o Kivu tornou-se na zona por excelência para senhores da guerra e agentes estrangeiros de todo o mundo, cada qual interessado em extrair para si uma fatia da enorme riqueza mineral do país, extraída num esquema de cumplicidade entre diversos agentes locais e uma comunidade internacional “esfomeada” pelos preciosos recursos da região.


A “paz jurídica” assinada nos acordos de Sun City (que oficialmente terminaram a segunda guerra do Congo em 2003) nunca trouxe a paz à região, que tem visto ao longo dos anos a um enorme escalar de violência, com a presença de uma dispendiosa missão de paz da ONU (MONUSCO), bem como a entrada e formação de novos grupos rebeldes (de destacar o M23, um misto de desertores do exército congolês e apoiados pelo Ruanda). Paralelamente, até aos dias de hoje, a região do Kivu tem também sofrido da instabilidade nos países vizinhos, assistido à entrada de novos agentes nesta guerra de facto, desde milícias Hutus e Tutsis dos vizinhos Ruanda e Burundi, até à chegada de membros islamitas do Estado Islâmico, com presença no Uganda.

O Kivu é uma região fundamental no mundo, essencial para a indústria eletrónica e da transição energética, desde logo por conter as maiores reservas mundiais de coltan e cassiterite, minérios essenciais para as baterias dos aparelhos eletrónicos (com capital importância nos transportes, aparelhos informáticos e aparelhos de telecomunicações). A região possui ainda enormes jazidos de ouro, diamantes, cobre, ferro, terras raras e, conforme notícias mais recentes, foram descobertas significativas reservas de petróleo no lago. Tudo isto numa região que vive há muitos anos o fenómeno das crianças soldado, violência sexual e indiscriminadas violações dos Direitos Humanos, trouxe um dramático custo para a região, que já contabiliza milhões de mortos. Segundo dados recentes, atualmente estão deslocados das suas casas no Kivu cerca de 3 milhões de pessoas, numa situação humanitária deveras catastrófica.

Uma imagem com ar livre, céu, Bairro degradado, tenda

Os conteúdos gerados por IA poderão estar incorretos.

Chegado a este ponto, quero terminar o artigo colocando ao leitor as seguintes questões:

- Estamos prontos para discutir verdadeiramente as questões da origem dos racismos e diferenças étnicas?

-Estamos dispostos a repensar a economia internacional para uma economia que garanta conforto ao mesmo tempo que é socialmente responsável?

- Estamos dispostos a repensar as várias estratégias para o desenvolvimento sustentável e transição energética, sem que isso acarrete um terrível custo humanitário?

- Estamos dispostos a exigir um maior escrutínio local e internacional de um conflito que impacta o nosso dia-a-dia?

- Estamos dispostos a repensar a nossa atuação cívica, pensando e repensando localmente problemas globais complexos?  

No centro de tudo isto, que creio serem os temas nucleares do século XXI e decisivos para o futuro da humanidade, está o Congo e a região do Kivu, que continuo a acompanhar com preocupação.