De forma a encerrar este meu fim de ciclo com a publicação do meu segundo livro, escrevo, no seguimento do primeiro guia de leitura sobre o Qi Qi, um artigo agora sobre o abalo. Este artigo é desafiante, pois é minha responsabilidade encontrar um equilíbrio e produzir um artigo que chegue diretamente às pessoas que já leram o meu livro e a eventuais pessoas que tendo o exemplar ainda não o fizeram, mas podem, com este texto renovar (ou eventualmente ganhar) algum nele algum interesse.
Este artigo vai ser também um pouco diferente do anterior, dado que tive a oportunidade de partilhar no Facebook um texto de apresentação e história d’O abalo nas convicções, por isso este post porventura será um pouco mais técnico.
Como jurista que se preze, não resisto em começar a abordar os aspetos formais do meu livro, antes de ir para aspetos mais materiais da obra, em torno dos personagens mais importantes.
No texto que escrevi no Facebook tive a oportunidade de revelar que o abalo inicialmente foi concebido como texto dramático e que só anos depois o converti em prosa. No entanto creio que consciente ou inconscientemente os locais, as interações entre os personagens presentes e parte dos acontecimentos mantiveram-se. Por isso o livro intercala rapidamente nos seus capítulos o foco em personagens diferentes em locais diferentes (com alguns acontecimentos a ocorrer ou ao mesmo tempo ou com muito poucas horas de intervalo), sendo que começa simbolicamente a encerrar a história e a aproximar os intervenientes para a mesma “cena” a partir do capítulo 8, tornando de certa forma interessante a forma de combinar dois estilos de escrita diferentes.
Continuando em aspetos formais, e por inspiração num anime japonês chamado “Classroom of the Elite” coloquei, no início de cada capítulo, uma citação de alguma forma relacionada com os acontecimentos que iriam ocorrer. Um dos aspetos interessantes do anime que mencionei, que no fundo é uma série estudantil numa escola secundária de elite semi futurista japonesa é a de começar todos os episódios com uma citação forte de um grande filósofo, cientista ou autoridade literária (como Confúcio, Horácio, Nietzsche, Adam Smith, Schopenhauer, Maquiavel, entre outros). Com isto achei interessante o modo como citações de pessoas de eras tão distintas, da Antiguidade à era Contemporânea, e com bases axiológicas tão diferentes, acabam por ligar com os acontecimentos daquela escola! Claro, estou muito longe das bases científicas dos autores que citei, mas como dediquei (e dedico) algum do meu tempo livre à leitura, achei que pudesse ser interessante fazer o mesmo no abalo, mencionar citações de vários livros que li e relacionar com os acontecimentos daqueles capítulos. De certa forma, acho que o conhecimento da pessoa humana pode ser algo que pode unir todos, e se conseguir mostrar como algo que foi escrito em França, nos EUA, na Rússia, na Hungria, em Cuba e em Portugal pode ter importância prática, ou, se se preferir, estar estritamente relacionado com os acontecimentos do nosso dia-a-dia, essa pode ser uma forma interessante de promover a boa leitura. A literatura de qualidade, a meu ver, consegue fazer isso mesmo, e creio que os bons livros podem ser um fator de união entre todos, união essa tão necessária (e em falta) nesta era que nós vivemos, cada vez mais caracterizada pelo sectarismo.
Entre as várias citações (e porque como alguém escreveu que “quando queremos somos os mais patriotas do mundo”), optei por não mencionar nenhum autor português “mainstream”, tendo decidido citar simbolicamente no epílogo um pequeno autor nacional que, a meu ver, tem imensa qualidade. Fi-lo não só para divulgar um pouco o seu nome e a sua obra, como também o fiz por crítica: infelizmente acho que a nossa sociedade ainda valoriza pouco o tremendo talento literário que existe no nosso país, e que para quem quer entrar neste mundo da escrita, o talento nem sempre é tudo e as oportunidades não são as mesmas para todos. Por esse motivo, permiti-me esta pequena crítica.
Já quanto à capa do livro, feita pela Beatriz Martins, tem o seu propósito e referência: a primeira, e mais importante, foi a de lhe dar a chance de, mais uma vez, ser ilustradora publicada, pois tal como disse a propósito dos escritores, também estou convicto de que existe muito talento escondido no mundo do desenho, e se tiver a chance de o divulgar (em linha com o que fiz com a Daniela e a Matilde no Qi Qi), parece-me estar a fazer uma boa ação. Quanto ao desenho em si, a capa foi inspirada na imagem de referência do jogo de Playstation 2 “Timesplitters” (dentro da criatividade que concedi, e a meu ver de forma certeira, à Bea), tendo aproveitado para partilhar a minha visão sobre a fisionomia que imaginei para alguns dos personagens centrais da obra, bem como a imagem do pato (nunca esquecendo toda a importância, mensagem e de certa forma mitologia que os animais têm para a nossa sociedade). E com esta nota concluo os aspetos formais deste meu guia de leitura, passando agora o foco a aspetos materiais dos personagens
Inevitavelmente tenho de começar por Jacinto Carvalho, o professor de História central nestes quatro dias do livro. O nome foi inspirado num amigo de infância (com as devidas diferenças) e o aspeto e personalidade foram uma mescla entre um outro falecido amigo e um antigo professor, e achei pertinente dar-lhe a centralidade do livro um pouco em linha com o personagem Stepan do livro “Demónios”. Mas com o tempo, tal como eu, creio que o Jacinto Carvalho amadureceu e chegou a patamares acima dos que eu esperava. Jacinto é um estudioso, alguém que adora, vive e respira História, e talvez por isso tenha um humanismo contagiante. Mas Jacinto, um pouco contra a maré da nossa era, é um otimista pois diverte-se conscientemente com todas as suas contradições e paradigmas, e talvez isso seja o que o torna mais peculiar - na nossa era, se pensarmos no que lemos, vemos e ouvimos na televisão, a tendência é para se encarar o futuro de forma pessimista, como algo assustador e incerto, e mesmo tendo motivos para isso, Jacinto opta por ser uma referência de otimismo, curiosidade (às vezes até um pouco infantil) e, à sua maneira, por ser um ponto de equilíbrio para quem o conhece. Na minha opinião pessoas como Jacinto Carvalho são precisas na sociedade de hoje, pessoas que pensam e apelam à meditação, pessoas que estimulam o espírito crítico, pessoas que apelam ao equilíbrio, pessoas que tentam ser um exemplo positivo e adotar uma postura construtiva, tudo isso são qualidades que creio que muitas vezes eu próprio estou longe de as ter. Por isso, Jacinto Carvalho tornou-se uma referência na minha vida e (espero) que em alguns dos meu leitores.
Passando ao Vasco, foi outro dos personagens que sempre foi central desde o início do abalo nas suas várias encarnações. Quis com ele tentar criar um personagem que fosse produto da educação de Jacinto. Não por acaso é um estudante universitário e mesmo sendo filho de Jacinto, as interações entre ambos naqueles quatro dias são escassas (como é característico de muitos na sua pele com aquela idade). Vasco começa como um jovem de bom coração, idealista, romântico (ainda que demasiado racional) e com vontade de deixar a sua marca no mundo, e vai progredindo na história como o estudante que atinge os impactos da vida adulta em tudo o que é difícil, irracional, belo e cruel. No livro, Vasco vive a sua grande experiência amorosa na idade adulta e progride ativamente como alguém com sede de conhecimento, o que acaba por ser a sua forma de contrariar a revolta face ao estado do país. Vasco oscila com os seus pensamentos em todo este emaranhado de contradições, mas é exatamente essa contradição que faz dele mais humano.
A Cristina Croquetes é provavelmente a personagem que mais mudou nas várias versões do livro e acabou por ganhar uma profundidade tal que merecia um livro focado nela. A Cristina tem os traços físicos de uma mulher que aprecio e a sua metamorfose no livro é um dos meu principais motivos de orgulho. Ela não é a mulher perfeita, tem o seu temperamento e estou plenamente convicto de que não é qualquer homem que vai ter interesse por uma mulher como ela, mas quis com a Cristina construir aquilo que admiro numa mulher, mais do que a aparência, a força. Por tudo o que ela passou (e foi imenso, já que o livro é bastante cruel com ela) ela permitiu-se chorar e ter medo, mas ainda assim, talvez por influência da amiga Jéssica e, mais do que isso, por ter encontrado capacidades que ela própria achava não ter, conseguiu ter a energia para continuar a sair à rua, e deu a si mesma a chance de arriscar de novo ao entrar numa relação saudável, e recuperar a sua ambição de querer fazer diferente e construtivo com a sua vida. Aquela mulher que no início todos riam e apontavam o dedo, acabou por se transformar (ou para muitos até revelar-se) como uma mulher muito competente e respeitada. Não foi fácil para mim criar a Cristina, mas estou muito satisfeito pelo resultado.
Afonso Machado, Hélio e Alexandre são o produto da influência (direta ou indireta) de Jacinto Carvalho e o modo de como a humanidade é complexa. Todos se consideram pessoas decentes, e cruzam-se na vida uns dos outros como convictos disso mesmo, mas quis com eles demonstrar como no contexto certo o homem é capaz do seu pior, não importa a sua origem, influências e cadeias de respeito. Afonso Machado, o empresário sombrio, Hélio, o passador de droga, e Alexandre, o assistente técnico com muito ressentimento acumulado vão ser fundamentais para a conclusão dos eventos no abalo.
O Rogério é um pouco o típico “homem de café” que todos conhecemos, o vencedor do Totoloto à segunda-feira, o treinador de bancada e o moralista. É um homem simples, de trabalho árduo, mas um pouco à semelhança de muitos de nós, guarda a sua dose de frustração com a nossa sociedade. A minha ideia foi a de mostrar com ele que, apesar de muita gente ter o seu tom por vezes demasiado grosseiro e pelas suas tentativas de tentar chegar ao nível de Jacinto, que muitas vezes as nossas ações não condizem com tudo o que dizemos e mesmo nesse tipo de pessoas existe uma grande dose de decência e honradez: apesar de tudo o que se possa sentir, a maioria das pessoas tem aversão à violência e à crueldade, e por muito que reprimamos, todos temos direito às nossas emoções.
Finalmente, e encerrando simbolicamente com Teodósio Selva, ele é inspirado no dono de um café que costumo frequentar e o seu nome é baseado num outro de amigo de infância. Ele funciona na história como um ponto de referência de conforto e amizade, alguém com quem toda a gente no grupo se sente à vontade e que podem contar. Como bom português, sabe receber e sabe ouvir, sendo um grande observador da natureza humana em todo o seu esplendor. Quando ganha confiança, Teodósio Selva é capaz de uma proximidade e assertividade extraordinárias.
Quero terminar estes meus guias de leitura para agradecer profundamente aos leitores do Qi Qi e do abalo, aos leitores do blog e aqueles que direta ou indiretamente seguem este meu “hobby” da escrita. Para os mais curiosos, de momento não estou a escrever mais nenhum livro, e não sei se o voltarei a publicar, mas certamente que vou continuar a escrever, mais não seja aqui no blog quando (e se) sentir que tenho alguma coisa a dizer que me parece pertinente. Até lá, independentemente do que seja, convido todos a cultivarem o seu lado criativo, seja para o que for, e a divertirem-se com a obra escolhida, que no fundo é o mais importante na arte!