Volto ao blog numa fase da vida adulta em que me sinto plenamente concretizado em termos literários, pois escrevi e publiquei o que pretendia ao fim de muitos anos.
Agora com a experiência de dois livros publicados, quero falar em particular para as pessoas que leram os meus livros, e quero começar com os leitores do Qi Qi, o meu primeiro livro, lançado numa escola primária em Leiria. Escrever um livro é mais do que a tarefa de inspiração quando pegamos no teclado e procuramos colocar por palavras uma mensagem que queremos transmitir: é um enorme processo de introspeção, memórias soltas, confissões e vivências pessoais. Provavelmente por isso nunca poderão existir duas escritas iguais, precisamente porque a escrita com identidade não se pode separar da complexidade do escritor.
Quero demonstrar isso mesmo, é válido até para os livros mais simples. O livro do Qi Qi e tudo aquilo que pesquisei e aprendi sobre o golfinho baiji, espécie hoje tida como o mamífero aquático mais raro do mundo, não fugiu do que referi. Por esse motivo quero mostrar que naquelas quatro páginas de word escondem por detrás muito mais simbolismo.
Os animais são um tema comum nos primeiros livros e nas primeiras histórias que ouvimos. As crianças que conheço cresceram com pequenas histórias de animais, como os sete cabritinhos, os três porquinhos ou, para quem é mais adepto da Disney, filmes como o Rei Leão e séries como o Timon e Pumba. Hoje certamente que existe mais conteúdo de animação para os mais novos que desconheço, mas arrisco dizer que os animais não deverão estar muito longe. Talvez por esse motivo, quando estava na escola primária e aprendia os primeiros temas relacionados com o ambiente, aprendia com gosto e interesse. Acredito que, de uma forma ou de outra, as crianças gostem de aprender, embora nem todas da mesma forma ou as mesmas matérias.
Como animal em vias de extinção, um exemplo típico e comum (até pelos enormes esforços que foram feitos para a sua conservação e reprodução) é o panda, símbolo não só do conhecido canal infantil português, como da China, o país tão longínquo e misterioso e, como tal, amplamente desconhecido para uma criança crescida em Leiria.
O baiji entrou na minha vida pouco tempo depois da escola primária. Creio que em 2005 ou 2006. Estava em casa da minha avó, num almoço de família ao domingo, distraído a ver televisão enquanto os adultos continuavam na mesa na conversa deles. De repente, quis talvez o destino (ou a sorte), que tivesse aparecido uma notícia: o golfinho baiji, um golfinho que se achava extinto e que só vivia num rio na China foi avistado! Dava para ver que era (e é) um animal muito raro. Várias coisas passaram pela minha cabeça: há golfinhos que só vivem em rios (pois só conhecia os do mar e, no máximo, aqueles que iam ao estuário do rio Sado)? Há animais que só vivem em certos sítios? Há notícias de extinção de animais assim tão recentes? Eu queria saber mais, aqueles 20 segundos de notícias colocaram-me todas essas questões! Felizmente nesses anos a internet como a conhecemos e a massificação dos computadores começou a chegar (de certa forma um pouco como a conhecemos hoje), e com a ajuda da Wikipedia descobri muitas coisas sobre este golfinho: que os seus números na natureza tinham caído para números muito baixos; que houve um golfinho que viveu 20 anos num aquário em Wuhan chamado Qi Qi e que morreu em 2002; e que em 2006 houve uma grande expedição de biólogos e cientistas pelo rio Yang-Tsé em busca de golfinhos sobreviventes para dar início a um intensivo programa de recuperação da espécie mas que, em 6 semanas, não foram avistados nenhuns, antevendo por isso uma possível extinção. Desde então aqui e ali têm sido noticiados relatos de avistamentos de baijis no rio Yang-Tsé, alguns até relativamente recentes, mas a comunidade científica reage de forma bastante cética: se admite que possam existir alguns exemplares na natureza, acha muito pouco provável (em função do seu número, idade e estado do rio Yang Tsé) que a espécie consiga recuperar, considerando-a por isso funcionalmente extinta.
Nos anos seguintes aqui e ali ia procurando notícias mais recentes do baiji, esperando um desfecho diferente do pessimista prognóstico, mas a notícia que quis (e ainda quero) ler até agora nunca apareceu. Não obstante, todo o tempo que investi no baiji não foi em vão.
Recordo muito bem que aos 14 anos estava numa situação académica complicada, em grande risco de reprovar o ano. Mas de novo, quis a sorte ou o destino que na disciplina de francês, perto do final do ano letivo, tivéssemos de fazer um pequeno trabalho de investigação sobre alguma temática relacionada com o ambiente. Nesse contexto achei que podia ser interessante e fora da caixa falar um pouco sobre o golfinho baiji e todo o histórico que acompanhei até à data. Sendo um tema amplamente desconhecido para a comunidade escolar, o trabalho foi muito bem recebido e muito bem avaliado. Arrisco até a dizer que talvez o baiji tenha me salvo do chumbo no 9º ano!
Os meus 14 anos tiveram outro curioso momento, importante também para o livro: naquela altura os meus pais instalaram uma box da Meo em casa, as primeiras que eu conhecia que permitiam gravar programas (mesmo com a TV desligada). Então com muita frequência colocava a gravar programas que passavam de madrugada, geralmente documentários, peças jornalísticas de investigação, programas de História e Geografia, e descobri muita da programação que passava no canal português da National Geographic, Odisseia, canal História - até ao fim do meu secundário consumi imenso conteúdo assim, programas sobre segunda guerra mundial, sobre a Coreia do Norte, sobre obras de engenharia peculiares, sobre acidentes de avião, e até histórias de pessoas presas no estrangeiro. Entre todo esse conteúdo houve uma série que nunca me esqueci chamada “Os rios e a vida” e gravei um episódio sobre o rio Ganges, rio sagrado para os hindus. Achei interessante o programa ter começado com a mitologia desse rio, que nos conta que o Ganges foi um rio nos céus e que os deuses o colocaram na Terra para garantir a prosperidade daquelas terras, sendo que foi colocado simbolicamente a nascer na cordilheira mais alta do mundo, os Himalaias. Quando escrevi o Qi Qi achei interessante aproveitar esta história para o livro (o que veio a ser decisivo para o seu final), admitindo desde já que privilegiei uma pequena criatividade ao invés do rigor: o baiji vivia no rio Yang Tsé e a matriz cultural da China é uma mistura entre o budismo e o confucionismo; a mitologia do rio Ganges é da cultura hindu, mais presente na maioria dos países do subcontinente indiano.
Aos 20 anos, já como aluno de Direito em Lisboa e com um nível de inglês confortável, continuei a pesquisar sobre o baiji, na esperança de novas notícias. Com outro tipo de informação acessível na internet (e não disponível em português) descobri que um biólogo inglês chamado Samuel Turvey (um dos biólogos que acompanhou a expedição de 2006 ao rio Yang-Tsé em busca de golfinhos) que escreveu um livro sobre a extinção do baiji, deixando o seu contributo para a História dos acontecimentos em torno das causas da possível extinção, bem como dos problemas do chamado mundo da conservação e meio ambiente. Inevitavelmente dei por mim a encomendar esse livro no ebay, “Witness To Extinction - How We Failed To Save The Yangtze River Dolphin”. Neste livro descobri a existência de uma lenda chinesa envolvendo o baiji: há várias versões sobre o início (algumas talvez demasiado pesadas), mas sempre envolve uma criança que estava a ser levada forçada para algum sítio e que, para escapar do terrível destino que lhe esperava, saltou em desespero para o rio Yang-Tsé, numa parte particularmente profunda. Perante a situação, um grupo de baijis foi imediatamente acudir a criança, tendo-a adotado e transformando num golfinho. Essa lenda deu-me a ideia que um dia poderia ser interessante escrever um conto infantil sobre o baiji, já que na mitologia chinesa este golfinho tinha não só características divinas, como era um animal amigo das crianças! Mas o livro de Samuel Turvey tinha mais do que isso: contava também que nos anos 80, pescadores no rio Yang-Tsé capturaram acidentalmente uma pequena cria macho de baiji, particularmente ferido: tendo sido acolhido com um prognóstico pessimista por um grupo de biólogos, as feridas daquela cria foram tratadas com base em plantas medicinais chinesas e o pequeno golfinho sobreviveu, tornando-se na principal atração daquele Instituto em Wuhan. O nome dado a esse golfinho, sem surpresa, foi Qi Qi e ficou então decidido que esse seria o nome que iria dar ao personagem principal da minha história (e que acabou também por ser o nome do meu livro!).
Quando no final de 2022/início de 2023 dei o passo decisivo de escrever este conto infantil, sentia que estava bloqueado: o tipo de escrita que um conto infantil envolve é muito diferente do que estava habituado, e com a quantidade de referências que tinha, o desafio de criar algo simples e apelativo para uma criança, o que foi algo que me fez sentir muitas vezes inseguro. Então para ultrapassar essa barreira parei e pensei em mim, no que eu era como criança e no tipo de coisas que gostava de ler e aprender: talvez muitas das referências não tenham ficado tão óbvias, mas se conseguisse transmitir um pouco de tudo o que deu origem ao Qi Qi, sentir-me-ia realizado. Mas isso não chegava: da minha infância de Leiria guardo os meus mais antigos amigos, muitos dos quais com quem ainda hoje tenho relação próxima e falo com frequência. Como todas as relações, as amizades são maravilhosas mas têm momentos em que muitas vezes temos de fazer aquilo que, mesmo não sendo o mais agradável ou bonito, é o certo a fazer. Porque se temos um amigo queremos o seu bem. E por esse motivo o foco central da história acabou por ser a amizade do Qi Qi com o Gil, o panda, ambos tão diferentes, mas verdadeiros amigos, e isso, para mim é maravilhoso. Não resisto também em partilhar que, em parte, a inspiração para a interação entre o Qi Qi e o panda Gil foram os 5 minutos finais de todos os episódios da série Boston Legal, onde dois melhores amigos tiravam o final de dia para celebrar a sua amizade, com um copo de whiskey e um charuto, partilhando os seus sentimentos, inseguranças, e vulnerabilidades. Talvez, de novo por sorte ou destino, uma recente amizade minha (já surgida em contexto profissional) fosse também decisiva para que o projeto do Qi Qi chegasse ao fim, sendo que este livro foi um projeto conjunto entre mim e as filhas do meu amigo Marco, a Daniela e Matilde, que gentilmente (e com imensa qualidade) aceitaram o meu desafio para ilustrar este livro, o qual espero que esteja à altura do seu talento para desenhar. E foi assim que nasceu o livro “Qi Qi o golfinho chinês”.
Quero acabar o meu texto a manifestar o meu maior agradecimento aos leitores do Qi Qi, porque é para eles que procuro transmitir a minha mensagem e todas estas referências que aqui mencionei.

Apos a minha 3 leitura, decidi deixar o meu comentario. Texto magnifico, escrita viciante e estou entusiamado por ler a parte 2 tal como a tua proxima obra ( nem que tenha que esperar 15 anos). Keep strong my captain
ResponderEliminarFico muito feliz ☺️ a escrita da parte 2 está em curso ! Muito obrigado por todo o apoio , Zoro
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