segunda-feira, 9 de maio de 2022

O Balancé do Alumínio e a Cocaína de Conacri parecem ter chegado à Europa (Atualização Política da República da Guiné)

 

Protestos em Conacri contra a Junta Militar (fevereiro 2022)

No passado mês de dezembro, aquando do meu regresso a este blog, escrevi sobre o golpe de Estado feito em Conacri a 5 de setembro de 2021. Passados uns meses, achei que seria oportuno fazer um breve artigo com uma atualização da situação político social no país.

 

Em termos políticos duas notas são relevantes: muito recentemente a Junta Militar que tomou o poder, liderada pelo Coronel Doumbouya anunciou um período de transição de poder dos militares para os civis de cerca de 3 anos, contrariando eventuais expectativas internas quanto a uma transição de poder transparente e ligeira, o que causou um certo desconforto perante uma muito provável normalização do estado de exceção da ordem política no país. Esse desconforto já se fez sentir nos últimos meses, sobretudo na capital Conacri onde já há registo de manifestações contra a Junta Militar e confrontos com as forças de segurança. Igualmente relevante foi o anuncio, no passado dia 4 de maio, do início do julgamento do ex presidente Alpha Condé, juntamente com cerca de três dezenas de antigas figuras de estado   por crimes praticados durante o exercício da sua presidência, nomeadamente tortura, homicídio, corrupção, autoritarismo e abusos sexuais. Deste julgamento, pese embora de forma alguma se exonere o ex presidente de atuações juridicamente (e politicamente!) muito censuráveis, na verdade, a prática corrente das situações de transição de poder em África, parecem indicar que este julgamento não se irá fazer tanto num prisma jurídico-processual, mas mais num prisma político, feito à medida pela nova estrutura de poder em Conacri emergente do golpe de Estado e dentro da sua noção de justiça.

Terminando este artigo com uma perspetiva mais internacional dos eventos em Conacri, cumpre falar do bauxite/alumínio no comércio internacional, bem como da questão sobre hipotética ligação dos golpistas de setembro aos carteis de droga sul americanos.



Quanto à bauxite, matéria prima essencial para o fabrico do alumínio, um material extremamente versátil e com diversas aplicações técnico industriais, podemos verificar que o golpe de Estado aconteceu numa fase de acentuado aumento do preço do alumínio, seguindo de uma ligeira estagnação e de uma nova subida. Deste gráfico verifica-se que não só a Guiné não pode dar ao luxo de manter as fronteiras fechadas (e consequentemente o comércio congelado) por muito tempo, dada a sua dependência da exportação das matérias primas. Em termos mas genéricos, com este caso da Guiné, podemos verificar que as economias africanas (e as demais demasiado dependentes do preço dos minérios) vivem em permanente oscilação: se no início do ano de 2022, até derivado do conflito da Rússia (um dos principais parceiros internacionais da Guiné Conacri) com a Ucrânia, tivemos um abrupto aumento do valor do alumínio, agora a tendência tem sido a de descida, o que invariavelmente afeta a vida económica do país.



Quanto ao fenómeno da droga, de modo algum se pode afirmar que a suspeita de ligação entre os carteis de droga sul americanos e a elite política de Conacri começou com o golpe do Coronel Doumbouya, mas vários órgãos de polícia estrangeiros (nomeadamente dos princípais países europeus) têm detetado um crescente aumento das quantidades de cocaína e ópio chegados à Europa via os países do Golfo da Guiné. Possivelmente a instabilidade verificada na Guiné facilitou a atividade dos carteis de droga no país e que com um contexto político mais favorável, aproveitaram para melhor escoar a sua droga para os mercados internacionais. O crescimento dos carteis de droga, não obstante os diversos problemas de segurança e de saúde que causam tanto nos países de cultivo, como os de transporte, como os de consumo , parece ser um indicador a ter em conta na análise política dos países desta região africana, que vão andar ao sabor das instabilidades e dificuldades destas estruturas do mundo do crime organizado.

O futuro em Conacri parece sombrio. Resta aguardar por futuros desenvolvimentos da evolução política no país.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

República Democrática do Congo: novo presidente, velho país

 

Vista panorâmica de uma das principais artérias de Kinshasa, a Avenida 30 de junho.

Desde que comecei este blog, o assunto sobre o qual mais publiquei e tive mais leituras foi sobre a República Democrática do Congo. Por esse motivo, e aproveitando este meu regresso ao blog, achei que talvez não fosse má ideia fazer um apanhado geral sobre a governação do Presidente Félix Tshisekedi, agora que no dia 30 de janeiro fez 3 anos desde a sua tomada de posse.

Inspirando no livro de José de Oliveira Cosme, «Tristezas e Alegrias do Senhor Zacarias», vou aproveitar o título para tentar adaptar ao Presidente Tshisekedi. Adianta-se desde já que as mudanças no país foram limitadas.


Imagens da Assembleia Nacional do Congo, que é um dos principais epicentros das dificuldades de Tshisekedi.

As Tristezas.

          A surpreendente vitória de Tshisekedi nas últimas eleições de 30 de dezembro de 2018 não correspondeu a uma viragem política congolesa. Apesar de ter concorrido como dirigente de um dos maiores partidos da oposição (a UDPS), na verdade a sua governação não é possível (em função das representações partidárias no Senado e na Assembleia Nacional) sem uma coligação com o FCC (o partido controlado pelo ex presidente Joseph Kabila). A influência de Kabila e do seu grupo é visível por todo o país ao controlar setores chave como a segurança, a defesa e a justiça, que são extremamente importantes para a vida política do país. Assim sendo, mesmo que se espere ou possa imputar uma certa boa vontade política ao novo presidente, o que é facto é que a sua margem de manobra acaba por ser limitada, confrontado com «rede de poder» de Joseph Kabila com a qual não contava. Por esse motivo, como refere o antigo primeiro-ministro Bernardin Mungul Diaka, «o condutor mudou, mas o veículo é o mesmo». As negociações para as grandes reformas estruturais no país são complicadas e em muitos pontos, destacando a reforma do sistema de Estado e governo, parecem ter chegado a um impasse. Mesmo com o tom conciliador e diplomático que Tshisekedi tenta ter, as vozes de descontentamento e desilusão com a sua presidência tendem a crescer.


Félix Tshisekedi reunido com o Presidente francês Macron.


As Alegrias.

        Os moderados triunfos de Tshisekedi como presidente têm sido feitos no plano diplomático e económico (ainda que neste campo haja efeitos agridoces). Começando com o plano diplomático, um dos esforços do presidente tem sido o de recuperar a imagem internacional do país, tendo já feito viagens diplomáticas importantes aos seus parceiros internacionais, nomeadamente os EUA, França, China, Rússia, e dentro de África aos vizinhos Angola, Ruanda, Tanzânia, Uganda, entre outros. O melhorar de relações diplomáticas que se fez no plano geral, tem (ainda que timidamente) melhorado a imagem do país, e isso está a fazer-se em dois domínios: por um lado o presidente que feito um esforço diplomático internacional para o auxílio de produção e vacinação contra a Covid-19 para os países africanos, que ainda têm taxas de vacinação muito baixas, sobretudo o próprio Congo que tem uma população de mais de 80 milhões de pessoas e uma taxa de vacinação inferior a 5%; por outro lado, na diplomacia financeira, o país tem melhorado as relações com o FMI (com o qual as relações de cooperação estiveram suspensas alguns anos), o Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento, tentando canalizar algum investimento internacional para o país. Kinshasa tem-se também tornado numa zona de crescente dinamismo económico (sobretudo por influência de jovens empresários com formação dos estrangeiro e/ou filhos de imigrantes congoleses por todo o mundo), ainda que as condições na cidade continuem particularmente complicadas, seja em termos de infraestruturas, saneamento, rede elétrica, entre outras. Os efeitos, contudo, ainda são tímidos, e a instabilidade da situação do país pode levar a uma retração deste fenómeno de investimento, pelo que ainda é prematuro apresentar este fenómeno como um triunfo.


Imagens de Salim Muhammad num vídeo de propaganda islamita no leste do Congo. Os jihadistas são um grupo em crescente ascensão nesta zona do país.


Novos e velhos problemas.

Falando agora de um velho problema, importa fazer uma nota breve sobre a zona do Kivu (cuja situação merece um artigo, a fazer-se adiante), mas sobre a qual a situação parece estar a complicar-se. A «transição digital» que foi apressada por necessidades derivadas da doença Covid-19, pode ser um dos fatores explicativos do aumento da atividade militar no leste do Congo nestes últimos anos, em virtude de uma maior necessidade das matérias-primas lá encontradas (nomeadamente o cobalto). Mas dois outros fatores parecem ter-se juntado aqui: por um lado, o fator da droga (um problema crescente em África, como falei no artigo da Guiné Conacri) parece estar a desempenhar um papel crescente no conflito do Kivu (e cujo consumo tem aumentado por todo o país), servindo não só como efeito psicótico para os soldados, mas também como meio de financiamento das várias milícias que operam nesta zona do país, diversificando o seu «portfólio» e consequentemente fortalecendo a sua presença; por outro lado, temos tido o crescimento da presença islamita nesta região, sobretudo na milícia AFD, com a presença de ex combatentes ou simpatizantes regionais do Daesh, que após as pesadas derrotas militares na Síria e no Iraque, têm procurado por todo o continente africano (desde o Mali até Moçambique) um novo território para expandir a sua influência. Dois acontecimentos em particular merecem reflexão: o primeiro sobre o misterioso assassinato do embaixador italiano no Congo, cujas motivações e causas permanecem ainda desconhecidas; e o segundo com a recente captura do jihadista Salim Muhammad, autor de vários vídeos de propaganda e de execuções efetuadas pelo grupo islamita.

    O futuro do Congo continua hoje muito longe de parecer brilhante. Resta agora aguardar por futuros desenvolvimentos





quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Minérios, Cocaína e Golpe de Estado: o caso da República da Guiné

 

Zona costeira em Conacri, a capital da República da Guiné.

No passado dia 5 de setembro, a comunidade africana foi surpreendida com um golpe de Estado em Conacri, efetuado pelas tropas especiais guineenses, que depôs o já idoso presidente Alpha Condé. A constituição foi dissolvida, as fronteiras foram encerradas e uma junta militar liderada pelo Coronel Mamady Doumbouya tomou transitoriamente o poder, ficando de elaborar uma nova Lei Fundamental.

Imagens do golpe de Estado de 5 de setembro de 2021. De óculos escuros está o Coronel Mamady Doumbouya, líder dos golpistas e atual Presidente.


Num ano particularmente rico em golpes de Estado nesta região africana (depois do Mali e do Chade), o caso da Guiné, sem desprimor para os restantes casos africanos (que mereciam um artigo individual, talvez adiante) merece particular atenção, em função da sua relevante riqueza natural, em função das suas redes de ligação à comunidade de países francófonos, EUA, China e Rússia, e em função da movimentação de um obscuro agente internacional: os carteis de Droga.

Nesta reflexão breve (e inevitavelmente lacunar), vamos olhar para o que foi a presidência de Alpha Condé, para o impacto da Guiné-Conacri no comércio internacional e para o fenómeno dos narcoestados.



Falando da presidência de Alpha Condé, surpreendentemente foi estável no plano internacional. O advento da sua presidência foi marcado pela instabilidade política que afetou o país após o falecimento do anterior Presidente Lansana Conté e do golpe de Estado de 2009 liderado pelo Capitão Moïse Dadis Camara, que levou ao decretamento de sanções económicas e militares aplicadas ao país. Contudo após as eleições presidenciais de 2010 em que Alpha Condé, (opositor de longa data dos dois anteriores “homens fortes” da Guiné) venceu, as diversas sanções foram levantadas. Mas se é verdade que a presidência de Alpha Condé foi estável no plano internacional (surpreendentemente gozando do apoio de França, EUA, China e Rússia, tendo todos eles manifestado oposição ao golpe de Estado deste ano), não o foi no plano interno. O Presidente nunca conseguiu um consenso nacional, dividido pelos diversos grupos étnicos (de registar os confrontos no sudoeste do país entre os Guerza maioritariamente cristãos e os Konianke de maioria muçulmana), grupos opositores e graves problemas sociais (note-se que a Guiné-Conacri segundo dados do FMI figura em 160º lugar entre 184 países no PIB per capita). Os abusos de direitos humanos, a morte e prisão de opositores, associado à vaga epidémica do Ébola em 2014, em que a Guiné foi o epicentro, comprometeram a governação de Condé. A tudo isto a enorme corrupção do governo (um flagelo infelizmente global que em particular nos países africanos assume dimensões surpreendentes), levaram a uma enorme insatisfação social, mesmo com o crescimento económico do país em função da exploração da sua riqueza mineral. A gota de água foi o referendo de alteração constitucional que visava permitir ao Presidente em exercício a candidatura a um terceiro mandato, bem como os efeitos económicos causados pela atual pandemia covid-19, que em função da baixa taxa de vacinação em África, está a ter efeitos sérios no continente.

A primeira imagem de Alpha Condé detido pelos militares após o golpe de Estado.


Feito este ponto, o país goza de uma impressionante riqueza mineral, concentradas essencialmente no sudoeste do país: entre os diversos minérios registam-se generosas reservas de ouro, diamantes, ferro e sobretudo bauxite, minério do qual se fabrica o alumínio e de importância facilmente percetível no comercio mundial (aliás, 60% das reservas globais de Bauxite estão na Guiné-Conacri, que tem a China, a Rússia e França como principais pareceiros económicos). Infelizmente, à exploração mineira à larga escala estão também associados elevados custos ambientais e de saúde.

Mina de bauxite a sul do país.


Finalmente, no ato final desta tragédia na Africa Ocidental, temos a presença dos carteis de droga sul americanos. Análises relativamente recentes apontavam para o risco de a Guiné-Conacri seguir o exemplo da sua vizinha (e bem conhecida por nós) Guiné-Bissau de se tornar um narcoestado. A presença dos grandes carteis de droga e do crime organizado não é inédita no plano internacional. Mas no caso da Guiné-Conacri havia o risco (que parece ter-se confirmado) de controlo de um país muito relevante em termos de matérias-primas, mas tal como os restantes narcoestado extremamente instável no plano interno. Como riscos apontados estavam o crescente volume de cocaína que chegou à Europa via Guiné nos anos recentes, a ligação entre altos setores do Estado a narcotraficantes e a iminência de um golpe de Estado que se confirmou este ano. As vantagens do controlo de um país como a Guiné são evidentes: para além de aspetos de Direito Diplomático (nomeadamente nas imunidades), temos o acesso às infraestruturas do país, viradas para a exportação de matérias-primas, em que a circulação da cocaína pode juntar-se às mesmas, tornando o mercado dos países francófonos mais acessível para estes carteis. E naturalmente, o controlo de reservas significativas de matérias-primas permite aos grandes carteis de Droga outro tipo de abordagem no plano internacional.



Por enquanto o Coronel Doumbouya lidera interinamente o país, e anunciou pouco depois da tomada do poder a re-abertura das fronteiras, sabendo que o país, tal como muitos outros em Africa, é extremamente dependente do escoamento das suas matérias-primas. Recentemente foi anunciada a libertação do ex presidente Alpha Condé, que sendo fiel às últimas noticias, encontra-se em prisão domiciliária, tal como outras figuras próximas do seu governo. Resta esperar para ver o futuro da Guiné- Conacri, que por ora afigura-se assustador…

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Conflito no Delta do Níger (Nigéria)



Para além da República Democrática do Congo, um outro país africano que tem enorme relevância para o comércio/economia internacional e que também gosto de pesquisar, é a Nigéria: o país é o mais populoso de África, com cerca de 199 milhões de pessoas (7º no mundo), e, de entre os países africanos é o maior exportador de petróleo, o possuidor de maiores reservas desta matéria prima, e é, desde 2014 (devido à recessão da África do Sul), a maior economia do continente.

A Nigéria é o maior exportador de petróleo de Africa. Só no Delta do Níger encontra-se 5% das reservas mundiais. Infelizmente a maioria dos nigerianos vive na pobreza.


Não obstante, não podemos dizer que a Nigéria é um país pacífico e prospero. Recentemente, a Nigéria tem aparecido nas notícias por todo o mundo devido aos ataques do grupo islâmico Boko Haram (leal ao Estado Islâmico), a ao seu conflito religioso. Entre linhas acrescento que existem um enorme equilíbrio religioso no país: aproximadamente 55% dos nigerianos são muçulmanos, sobretudo no norte do país, e cerca de 45% são cristãos, sobretudo no sul. Talvez fale sobre o Boko Harem num artigo futuro, mas agora vamos ao sul da Nigéria e ao delta do rio Níger.


A foz do rio Níger forma um enorme Delta, que dá o nome à região. Outrora um dos mais importantes ecossistemas em África, hoje o rio está extremamente poluído.

Contexto histórico e militarização no Delta

Mapa da região do delta.
O território da atual Nigéria foi concedido ao Reino Unido na Conferência de Berlim. Na região do delta do Níger a principal atividade (pela sua localização geo-estratégica no golfo da Guiné) era o comércio do óleo de palma, e era em torno disso que boa parte da população vivia. A Nigéria como hoje a conhecemos surgiu por decisão administrativa de Londres em 1914, tendo sido então subdividida em três estados. Imediatamente surgiram conflitos étnicos, pois nenhuma das etnias maioritárias da nova colónia vivam no delta, e a ideia de prestar contas a grupos exteriores não foi do agrado da população. Não obstante, os britânicos contiveram a revolta com sucesso.

Em 1954, os britânicos alteraram o estatuto administrativo da Nigéria para federação, tendo esta divisão institucionalizado o mau estar já existente no país, ao consagrar instituições de tipo ocidental cujos cargos eram ocupados pelos grupos étnicos maioritários, a saber os Yoruba, os Igbo (que passaram na prática a ser os “senhores do delta”) e os Hausa-Fulani. Nessa mesma década, enormes reservas de petróleo foram descobertas pela Shell e pela BP no atual estado de Bayelsa no ano de 1956, e dois anos depois, começou a exportação do produto.

A Nigéria exporta petróleo desde 1958, mas essa atividade teve grandes efeitos colaterais.

Em 1960 a Nigéria alcança a independência o por todo o país, incluindo o delta, houve diversas tentativas de independência de várias regiões (sem sucesso). Em 1966 Isaac Bora tenta proclamar uma República do Delta do Níger, mas elite Igbo consegue conter as suas ambições e este é derrotado. Contudo, em julho desse ano, Yakubu Gowon toma o poder na Nigéria e liberta Bora e seus aliados, sendo que estes se juntam ao novo presidente na guerra civil da Nigéria.

A guerra civil da Nigéria (1967-1970), também conhecida como guerra do Biafra requer uma autonomização pela sua complexidade: pouco depois de tentativa de independência de Isaac Bora, Odumegwu Ojukwu, da etnia Igbo, uma das etnias dominantes na Nigéria desde o "mapa regional" britânico, (e que até impediram o golpe de Boro), proclamou a independência do Biafra, um país que ia do delta até à fronteira com os Camarões. Vendo a sua principal fonte de receitas em risco, o presidente do governo central Gowon imediatamente declarou guerra ao Biafra. A internacionalização desta guerra foi atípica, mesmo em plena guerra fria: em vez do tradicional jogo EUA vs URSS, os protagonistas principais foram França (que apoiou do Biafra) e Reino Unido (que apoiou o governo central), e a disputa entre as suas petrolíferas (a Shell do lado do Reino Unido e a Elf do lado de França) pelos poços de petróleo. A URSS, mesmo sem grande entusiasmo, apoiou o governo central, temendo que a fragmentação dos novos africanos dificultasse as suas ambições políticas no continente e, em contrapartida, reforçasse a influência das antigas colónias europeias. Já os EUA, ainda que oficialmente neutros, não tiveram uma postura uniforme: administração Johnson apoiava secretamente o governo nigeriano, já Nixon era mais pró-Biafra, mas ao aperceber-se que a derrota deste lado era questão de tempo, mudou de lugar. Quanto a atores mais mediatos, do lado do Biafra cumpre destacar Israel, e o trio de Portugal, África do Sul e Rodésia.
Esta guerra teve enorme impacto mediato à época: a fome foi mesmo usada como arma neste conflito. Durante os 3 anos, a Nigéria impediu que alimentos e outros bens de primeira necessidade chegassem facilmente ao Biafra, com consequências humanitárias catastróficas. Nestes 3 anos, perto de 1 milhão e meio de pessoas morreram.

Isaac Bora lutou pelo lado da Nigéria: ou por prova de lealdade a Gwom, que o libertou, ou mesmo por oposição ao Igbos, que na sua ótica já muito tinham beneficiado da região. Em 1970, Bora foi assassinado, em circunstâncias desconhecidas. Ainda hoje é visto como um mártir no delta.

Em 1969, o governo central de Lagos (então a capital da Nigéria), promulga o Decreto nº 51/Petroleum Act of 1969: aproveitando as galopantes receitas da exportação de petróleo no delta, com esta lei o governo na prática fez uma “nacionalização administrativa”, pois em vez das receitas de produção e exportação reverterem para as entidades administrativas da região, estas passaram a reverter para o governo central. O efeito imediato foi claro, a partir desse momento as multinacionais petrolíferas (que entretanto tinham entrado no país) deixaram de “prestar contas” aos líderes regionais, fazendo-o apenas ao governo central.

Com esta deslocação de receitas e após o fim da guerra civil, surgiram enormes protestos na região, onde se destacaram os Ogonis, uma das minorias étnicas do delta. Estes criaram o MOSOP (movimento para a sobrevivência do povo Ogoni) que levou a cabo uma campanha pacífica de protesto contra as multinacionais e contra o governo, e tinha essencialmente dois objetivos, que os detalhou num documento chamado a Ogoni Bill of Rights: o ressarcimento dos danos causados pela produção e exportação de petróleo na sua terra, sobretudo ambientais, que punham em causa a sua subsistência, que era à base de atividades do sector primário; e uma repartição local e justa das grandes receitas de petróleo. Nos anos 90, Ken Saro Wiwa assume como líder do movimento, e centra a campanha do grupo contra a Shell e a poluição de que esta era responsável, tendo conseguido com sucesso que esta deixasse a região Ogoni em 1993. Ferido de receitas, o governo central imediatamente reagiu. Á época a Nigéria vivia sob ditadura militar do general Abacha, e imediatamente o exército nigeriano fez buscas a aldeias ogoni, prendendo membros e simpatizantes do MOSOP e, em 1994, sub alegações fraudulentas e falsas, condenou à morte Ken Saro Wiwa e outros oito dirigentes do seu movimentos. Estes foram enforcados em novembro de 1995 numa prisão em Port Harcourt (a maior cidade do Delta do Níger).
O ativista político e ambiental Ken Saro Wiwa.

A morte da Saro Wiwa foi marcante, não só devido ao protagonismo internacional que este conseguiu obter, como para a maioria da população do delta, jovem, pobre e desempregada. Estes viram que a campanha pacífica contra os problemas da sua região foi insuficiente e levava a resultados dramáticos, pelo que a oposição ao governo e ás multinacionais deixou de ser pacífica e passou a ser violenta: nesse sentido, diversas milícias militares, próximas ás elites do delta, surgiram, em destaque para  a NDPVF (Niger delta people's volunteer force) e o MEND (Movimento de emancipação do delta do Níger), que centravam as suas atividades na sabotagem e destruição das infra-estruturas petrolíferas da região, e ataques centralizados por toda a Nigéria contra o governo central. Com a presidência de Umaru Musa Yar'Adua (que veio a falecer de cancro durante a presidência),e do vice presidente que o sucedeu Goodluck Jonathan (que é natural do delta), houve um enorme programa de amnistia para os grupos armados na região, que terminou em dezembro de 2015 quando Jonathan perdeu as eleições presidenciais e saiu do poder. A partir de 2016, surgiram novas milícias na região e muitos jovens voltaram à oposição armada, pelo que hoje o Delta do Níger continua a ser uma das regiões mais poluídas e violentas do mundo. O petróleo infelizmente tornou-se uma maldição para a região e para o país.


Rebeldes do MEND a patrulhar uma facha do delta.

Corrupção no Delta

Estima-se que cerca de 10% do petróleo extraído na Nigéria é
desviado de plataformas petrolíferas ou oleodutos
para financiar gangs e milícias.
Terminado o enquadramento histórico, um paradoxo parece ter surgido: com a divisão administrativa do país e a distribuição assimétrica dos lucros do petróleo, é de estranhar que diversos grupos armados locais tenham surgido e conseguido enormes quantidades de armamento... A resposta a isso alude a outro problema estrutural da Nigéria, a corrupção. Grandes líderes regionais e políticos locais costumam ser as pessoas por detrás dos grupos armados, e grande parte do seu financiamento é feito pela revenda de petróleo furtado. Em rigor, não se trata de um furto propriamente dito. Complacentes com essa prática, é comum as petrolíferas e o governo deixarem que parte do petróleo (ou por desvio de oleodutos ou por permitir o “desaparecimento” de alguns barris de petróleo) caia nas mãos desses influentes políticos, sendo o produto da sua revenda usado para o armamento da insurgência. Paradoxalmente as petrolíferas e o governo permitem isso como forma de "aliviar" o conflito e alimentar as elites locais, que se tornam cúmplices dos acontecimentos do delta. Ainda assim, os protestos pacíficos têm perdido militantes porque a via violenta para além de conceder o desejo de aparentes resultados mais imediatos, permite ganhar a vida numa região em que as oportunidades de emprego são escassas e limitadas. Esse é um dos motivos pelos quais, mesmo perante todo o contexto histórico analisado, o conflito do delta do Níger se tem perpetuado e não ter havido grandes melhorias na situação. O documentário que cito no fim deste texto aborda esta questão.

Catástrofe Ambiental

A quantidade de peixe desceu drasticamente nos
últimos 50 ano no delta.
No Delta do Níger vivem 34 milhões de pessoas, mas mais de 70% delas não têm acesso a água potável. A pesca e a agricultura, que outrora foram atividades dominantes na região, estão seriamente comprometidas, consequência da descuidada exploração de petróleo. Em média, por ano, cerca de 240.000 barris de petróleo são derramados no rio Níger. Um numero assustador que teve como consequência imediata uma enorme taxa de mortalidade infantil, epidemias diretamente relacionadas com a qualidade da água, a destruição de habitats com imediatas implicações económicas para os locais. Países vizinhos já foram afetados pela poluição no delta.

Conclusões

De novo, no continente africano, a luta pelo lucro das matérias primas criou/agravou um novo conflito com grandes proporções económicas, políticas e ambientais. Não é certo quantas pessoas morreram, mas podemos estimar que milhões de pessoas sofreram e estão a sofrer com a violência e poluição no delta. Infelizmente a ansia pelo lucro imediato, ignorando a sustentabilidade, originou um outro conflito de difícil resolução...

Não sei se será possível reverter a poluição do rio e recuperar o que se perdeu a nível ambiental, mas não creio que a situação se vá alterar muito. De novo, o acesso ás matérias primas tornou-se num problema em vez de ser a solução para melhorar a vida à maioria dos nigerianos. Resta esperar para ver os desenvolvimentos futuros sobre a situação no delta do Níger.

Para quem quiser e estiver curioso sobre este conflito, deixo ainda uma última referência, que é um excelente documentário da Journeyman Pictures de 2005 chamado Nigeria's Escalating Oil Wars.