quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Guia de leitura – Qi Qi, o golfinho chinês (1)


Volto ao blog numa fase da vida adulta em que me sinto plenamente concretizado em termos literários, pois escrevi e publiquei o que pretendia ao fim de muitos anos.

Agora com a experiência de dois livros publicados, quero falar em particular para as pessoas que leram os meus livros, e quero começar com os leitores do Qi Qi, o meu primeiro livro, lançado numa escola primária em Leiria. Escrever um livro é mais do que a tarefa de inspiração quando pegamos no teclado e procuramos colocar por palavras uma mensagem que queremos transmitir: é um enorme processo de introspeção, memórias soltas, confissões e vivências pessoais. Provavelmente por isso nunca poderão existir duas escritas iguais, precisamente porque a escrita com identidade não se pode separar da complexidade do escritor.

Quero demonstrar isso mesmo, é válido até para os livros mais simples. O livro do Qi Qi e tudo aquilo que pesquisei e aprendi sobre o golfinho baiji, espécie hoje tida como o mamífero aquático mais raro do mundo, não fugiu do que referi. Por esse motivo quero mostrar que naquelas quatro páginas de word escondem por detrás muito mais simbolismo.

Os animais são um tema comum nos primeiros livros e nas primeiras histórias que ouvimos. As crianças que conheço cresceram com pequenas histórias de animais, como os sete cabritinhos, os três porquinhos ou, para quem é mais adepto da Disney, filmes como o Rei Leão e séries como o Timon e Pumba. Hoje certamente que existe mais conteúdo de animação para os mais novos que desconheço, mas arrisco dizer que os animais não deverão estar muito longe. Talvez por esse motivo, quando estava na escola primária e aprendia os primeiros temas relacionados com o ambiente, aprendia com gosto e interesse. Acredito que, de uma forma ou de outra, as crianças gostem de aprender, embora nem todas da mesma forma ou as mesmas matérias. 

Como animal em vias de extinção, um exemplo típico e comum (até pelos enormes esforços que foram feitos para a sua conservação e reprodução) é o panda, símbolo não só do conhecido canal infantil português, como da China, o país tão longínquo e misterioso e, como tal, amplamente desconhecido para uma criança crescida em Leiria.

O baiji entrou na minha vida pouco tempo depois da escola primária. Creio que em 2005 ou 2006. Estava em casa da minha avó, num almoço de família ao domingo, distraído a ver televisão enquanto os adultos continuavam na mesa na conversa deles. De repente, quis talvez o destino (ou a sorte), que tivesse aparecido uma notícia: o golfinho baiji, um golfinho que se achava extinto e que só vivia num rio na China foi avistado! Dava para ver que era (e é) um animal muito raro. Várias coisas passaram pela minha cabeça: há golfinhos que só vivem em rios (pois só conhecia os do mar e, no máximo, aqueles que iam ao estuário do rio Sado)? Há animais que só vivem em certos sítios? Há notícias de extinção de animais assim tão recentes? Eu queria saber mais, aqueles 20 segundos de notícias colocaram-me todas essas questões! Felizmente nesses anos a internet como a conhecemos e a massificação dos computadores começou a chegar (de certa forma um pouco como a conhecemos hoje), e com a ajuda da Wikipedia descobri muitas coisas sobre este golfinho: que os seus números na natureza tinham caído para números muito baixos; que houve um golfinho que viveu 20 anos num aquário em Wuhan chamado Qi Qi e que morreu em 2002; e que em 2006 houve uma grande expedição de biólogos e cientistas pelo rio Yang-Tsé em busca de golfinhos sobreviventes para dar início a um intensivo programa de recuperação da espécie mas que, em 6 semanas, não foram avistados nenhuns, antevendo por isso uma possível extinção. Desde então aqui e ali têm sido noticiados relatos de avistamentos de baijis no rio Yang-Tsé, alguns até relativamente recentes, mas a comunidade científica reage de forma bastante cética: se admite que possam existir alguns exemplares na natureza, acha muito pouco provável (em função do seu número, idade e estado do rio Yang Tsé) que a espécie consiga recuperar, considerando-a por isso funcionalmente extinta.

Nos anos seguintes aqui e ali ia procurando notícias mais recentes do baiji, esperando um desfecho diferente do pessimista prognóstico, mas a notícia que quis (e ainda quero) ler até agora nunca apareceu. Não obstante, todo o tempo que investi no baiji não foi em vão. 

Recordo muito bem que aos 14 anos estava numa situação académica complicada, em grande risco de reprovar o ano. Mas de novo, quis a sorte ou o destino que na disciplina de francês, perto do final do ano letivo, tivéssemos de fazer um pequeno trabalho de investigação sobre alguma temática relacionada com o ambiente. Nesse contexto achei que podia ser interessante e fora da caixa falar um pouco sobre o golfinho baiji e todo o histórico que acompanhei até à data. Sendo um tema amplamente desconhecido para a comunidade escolar, o trabalho foi muito bem recebido e muito bem avaliado. Arrisco até a dizer que talvez o baiji tenha me salvo do chumbo no 9º ano!

Os meus 14 anos tiveram outro curioso momento, importante também para o livro: naquela altura os meus pais instalaram uma box da Meo em casa, as primeiras que eu conhecia que permitiam gravar programas (mesmo com a TV desligada). Então com muita frequência colocava a gravar programas que passavam de madrugada, geralmente documentários, peças jornalísticas de investigação, programas de História e Geografia, e descobri muita da programação que passava no canal português da National Geographic, Odisseia, canal História - até ao fim do meu secundário consumi imenso conteúdo assim, programas sobre segunda guerra mundial, sobre a Coreia do Norte, sobre obras de engenharia peculiares, sobre acidentes de avião, e até histórias de pessoas presas no estrangeiro. Entre todo esse conteúdo houve uma série que nunca me esqueci chamada “Os rios e a vida” e gravei um episódio sobre o rio Ganges, rio sagrado para os hindus. Achei interessante o programa ter começado com a mitologia desse rio, que nos conta que o Ganges foi um rio nos céus e que os deuses o colocaram na Terra para garantir a prosperidade daquelas terras, sendo que foi colocado simbolicamente a nascer na cordilheira mais alta do mundo, os Himalaias. Quando escrevi o Qi Qi achei interessante aproveitar esta história para o livro (o que veio a ser decisivo para o seu final), admitindo desde já que privilegiei uma pequena criatividade ao invés do rigor: o baiji vivia no rio Yang Tsé e a matriz cultural da China é uma mistura entre o budismo e o confucionismo; a mitologia do rio Ganges é da cultura hindu, mais presente na maioria dos países do subcontinente indiano.

Aos 20 anos, já como aluno de Direito em Lisboa e com um nível de inglês confortável, continuei a pesquisar sobre o baiji, na esperança de novas notícias. Com outro tipo de informação acessível na internet (e não disponível em português) descobri que um biólogo inglês chamado Samuel Turvey (um dos biólogos que acompanhou a expedição de 2006 ao rio Yang-Tsé em busca de golfinhos) que escreveu um livro sobre a extinção do baiji, deixando o seu contributo para a História dos acontecimentos em torno das causas da possível extinção, bem como dos problemas do chamado mundo da conservação e meio ambiente. Inevitavelmente dei por mim a encomendar esse livro no ebay, “Witness To Extinction - How We Failed To Save The Yangtze River Dolphin”. Neste livro descobri a existência de uma lenda chinesa envolvendo o baiji: há várias versões sobre o início (algumas talvez demasiado pesadas), mas sempre envolve uma criança que estava a ser levada forçada para algum sítio e que, para escapar do terrível destino que lhe esperava, saltou em desespero para o rio Yang-Tsé, numa parte particularmente profunda. Perante a situação, um grupo de baijis foi imediatamente acudir a criança, tendo-a adotado e transformando num golfinho. Essa lenda deu-me a ideia que um dia poderia ser interessante escrever um conto infantil sobre o baiji, já que na mitologia chinesa este golfinho tinha não só características divinas, como era um animal amigo das crianças! Mas o livro de Samuel Turvey tinha mais do que isso: contava também que nos anos 80, pescadores no rio Yang-Tsé capturaram acidentalmente uma pequena cria macho de baiji, particularmente ferido: tendo sido acolhido com um prognóstico pessimista por um grupo de biólogos, as feridas daquela cria foram tratadas com base em plantas medicinais chinesas e o pequeno golfinho sobreviveu, tornando-se na principal atração daquele Instituto em Wuhan. O nome dado a esse golfinho, sem surpresa, foi Qi Qi e ficou então decidido que esse seria o nome que iria dar ao personagem principal da minha história (e que acabou também por ser o nome do meu livro!).

Quando no final de 2022/início de 2023 dei o passo decisivo de escrever este conto infantil, sentia que estava bloqueado: o tipo de escrita que um conto infantil envolve é muito diferente do que estava habituado, e com a quantidade de referências que tinha, o desafio de criar algo simples e apelativo para uma criança, o que foi algo que me fez sentir muitas vezes inseguro. Então para ultrapassar essa barreira parei e pensei em mim, no que eu era como criança e no tipo de coisas que gostava de ler e aprender: talvez muitas das referências não tenham ficado tão óbvias, mas se conseguisse transmitir um pouco de tudo o que deu origem ao Qi Qi, sentir-me-ia realizado. Mas isso não chegava: da minha infância de Leiria guardo os meus mais antigos amigos, muitos dos quais com quem ainda hoje tenho relação próxima e falo com frequência. Como todas as relações, as amizades são maravilhosas mas têm momentos em que muitas vezes temos de fazer aquilo que, mesmo não sendo o mais agradável ou bonito, é o certo a fazer. Porque se temos um amigo queremos o seu bem. E por esse motivo o foco central da história acabou por ser a amizade do Qi Qi com o Gil, o panda, ambos tão diferentes, mas verdadeiros amigos, e isso, para mim é maravilhoso. Não resisto também em partilhar que, em parte, a inspiração para a interação entre o Qi Qi e o panda Gil foram os 5 minutos finais de todos os episódios da série Boston Legal, onde dois melhores amigos tiravam o final de dia para celebrar a sua amizade, com um copo de whiskey e um charuto, partilhando os seus sentimentos, inseguranças, e vulnerabilidades. Talvez, de novo por sorte ou destino, uma recente amizade minha (já surgida em contexto profissional) fosse também decisiva para que o projeto do Qi Qi chegasse ao fim, sendo que este livro foi um projeto conjunto entre mim e as filhas do meu amigo Marco, a Daniela e Matilde, que gentilmente (e com imensa qualidade) aceitaram o meu desafio para ilustrar este livro, o qual espero que esteja à altura do seu talento para desenhar. E foi assim que nasceu o livro “Qi Qi o golfinho chinês”.

Quero acabar o meu texto a manifestar o meu maior agradecimento aos leitores do Qi Qi, porque é para eles que procuro transmitir a minha mensagem e todas estas referências que aqui mencionei.


sábado, 1 de março de 2025

O conflito regional do Kivu (República Democrática do Congo)

 

Em finais de 2018, quando criei o blog, o meu foco principal, e durante muito tempo, foi a República Democrática do Congo. Entre 2018 e 2019 acompanhei com grande preocupação a transição de poder entre Joseph Kabila e Félix Tshisekedi, e pontualmente escrevi artigos sobre alguns focos de instabilidade, desde logo no Kasai e no Ituri. Mas propositadamente ficou por analisar aquele que é provavelmente o conflito de maior dimensão e mais impactante na República Democrática do Congo: o Kivu, sobretudo os territórios de Masisi, Rutshuru e Walikale.

Assumindo desde já uma tarefa difícil de tentar simplificar um conflito com origens desconhecidas, mas que assumiu particulares proporções cruéis desde 1998, é chegada a hora de assumir o risco e tentar falar aqui no blog um pouco sobre o Kivu.


Kivu, nome da região, é oriundo do nome do lago vulcânico que marca a fronteira da República Democrática do Congo com o Ruanda, sendo um dos chamados “Grandes Lagos” em Africa, juntamente com o lago Vitória, na zona do Uganda, bem como do lago Tanganica, entre o Congo, o Burundi e a Tanzânia.

A legitimidade histórica sobre a povoação originária do Kivu (aquando da chegada dos belgas nos finais do século XIX), é discutível: alias, muitas das milícias que operam na região argumentam serem os verdadeiros representantes dos nativos da região, que aquando a chegada dos europeus viviam entre um conjunto de tradições e estruturas que, não sendo réplicas, diria que na ótica de um europeu faziam lembrar a Europa medieval, com várias entidades diferentes, alianças regionais diferentes e feudos complexos. Há, contudo, evidências históricas que a região era cobiçada pelos vários reinos centro africanos, atraídos pela sua tardia exploração agrícola e pelo seu subsolo. Existem até historiadores que consideram que os pesos das etnias, em função das várias vassalagens, cultos e seitas da região, assumiram maiores proporções a partido do momento da colonização belga, havendo registo de significativas mudanças no equilíbrio de poder na região (sobretudo na primeira metade do século XX), com a promoção da colonização do território de pessoas oriundas zonas diferentes (desde logo, pela chegada de muitos trabalhadores da região onde hoje é o Ruanda), alternando conforme conveniências políticas a classe dominante da região.

O período da colonização belga e o período pós-independência em 1960 trouxe uma diferença muito significativa na região e a entrada de novos atores: se os belgas administravam o Kivu baseados num sistema descentralizado, atendendo ao enorme mosaico cultural do país, o governo de Leopoldville (mais tarde rebatizada de Kinshasa) procurou de todas as formas uma administração do território centralizada, dando um contexto perfeito para a destabilização da região.

Os anos de Mobutu foram um misto da solução belga e da solução pós-independência: se inicialmente administrou o território via as elites locais instaladas, mais tarde procurou, em função do seu enorme apetite, centralizar para si e para a sua elite mais próxima de Kinshasa.

Foi neste contexto que eclodiram as duas guerras do Congo nos anos 90 (que tive oportunidade de analisar com mais detalhe aqui), sendo que chamo a particular atenção para a sua terceira e quarta fases (sensivelmente a partir de 1999): nem o Ruanda conseguia capturar Kinshasa e derrubar Laurent Kabila, nem Kabila e os seus aliados africanos tinham capacidade militar para expulsar as tropas estrangeiras inimigas. E desde então os exercícios dividiram-se e subdividiram-se em várias milícias, com fins diferentes e cada qual com a sua “legitimidade própria” e aquela que era uma guerra política transformou-se numa guerra económica, a qual perdura até aos dias de hoje: estando numa região vasta, com pouca infraestrutura e com uma enormíssima riqueza natural, o Kivu tornou-se na zona por excelência para senhores da guerra e agentes estrangeiros de todo o mundo, cada qual interessado em extrair para si uma fatia da enorme riqueza mineral do país, extraída num esquema de cumplicidade entre diversos agentes locais e uma comunidade internacional “esfomeada” pelos preciosos recursos da região.


A “paz jurídica” assinada nos acordos de Sun City (que oficialmente terminaram a segunda guerra do Congo em 2003) nunca trouxe a paz à região, que tem visto ao longo dos anos a um enorme escalar de violência, com a presença de uma dispendiosa missão de paz da ONU (MONUSCO), bem como a entrada e formação de novos grupos rebeldes (de destacar o M23, um misto de desertores do exército congolês e apoiados pelo Ruanda). Paralelamente, até aos dias de hoje, a região do Kivu tem também sofrido da instabilidade nos países vizinhos, assistido à entrada de novos agentes nesta guerra de facto, desde milícias Hutus e Tutsis dos vizinhos Ruanda e Burundi, até à chegada de membros islamitas do Estado Islâmico, com presença no Uganda.

O Kivu é uma região fundamental no mundo, essencial para a indústria eletrónica e da transição energética, desde logo por conter as maiores reservas mundiais de coltan e cassiterite, minérios essenciais para as baterias dos aparelhos eletrónicos (com capital importância nos transportes, aparelhos informáticos e aparelhos de telecomunicações). A região possui ainda enormes jazidos de ouro, diamantes, cobre, ferro, terras raras e, conforme notícias mais recentes, foram descobertas significativas reservas de petróleo no lago. Tudo isto numa região que vive há muitos anos o fenómeno das crianças soldado, violência sexual e indiscriminadas violações dos Direitos Humanos, trouxe um dramático custo para a região, que já contabiliza milhões de mortos. Segundo dados recentes, atualmente estão deslocados das suas casas no Kivu cerca de 3 milhões de pessoas, numa situação humanitária deveras catastrófica.

Uma imagem com ar livre, céu, Bairro degradado, tenda

Os conteúdos gerados por IA poderão estar incorretos.

Chegado a este ponto, quero terminar o artigo colocando ao leitor as seguintes questões:

- Estamos prontos para discutir verdadeiramente as questões da origem dos racismos e diferenças étnicas?

-Estamos dispostos a repensar a economia internacional para uma economia que garanta conforto ao mesmo tempo que é socialmente responsável?

- Estamos dispostos a repensar as várias estratégias para o desenvolvimento sustentável e transição energética, sem que isso acarrete um terrível custo humanitário?

- Estamos dispostos a exigir um maior escrutínio local e internacional de um conflito que impacta o nosso dia-a-dia?

- Estamos dispostos a repensar a nossa atuação cívica, pensando e repensando localmente problemas globais complexos?  

No centro de tudo isto, que creio serem os temas nucleares do século XXI e decisivos para o futuro da humanidade, está o Congo e a região do Kivu, que continuo a acompanhar com preocupação.


domingo, 20 de outubro de 2024

O Clérigo e o julgamento da espécie (2024), de Leopoldo Guimarães.

 

 

«Reflexões final de dia», já lá vai algum tempo desde que aqui escrevo.

Voltei aqui por dois motivos: no campo profissional muito recentemente vi-me confrontado com as possibilidades e usos das ferramentas de inteligência artificial, que prometem trazer grandes alterações para os vários setores do mercado, nomeadamente ao setor financeiro. Desiluda-se quem leu Orwell e sobretudo Huxley, quem achou que os cenários distópicos traçados pelos autores iriam demover o progresso científico. Está aqui, e está para ficar.

Voltei aqui, também porque no campo pessoal, apesar de tentar manter o meu ritmo de leituras, por sentir que este seria o momento de me aventurar num autor que não conhecia. Diversas vezes, em canais de cultura e entretenimento mais alternativo tenho descoberto conteúdo de imensa qualidade, que por vários motivos passa mais despercebido. Por isso achei que neste contexto pessoal não seria mal pensado dar uma chance de explorar algo novo. Procurei, por isso, um livro diferente, algo atual, de leitura fácil, rápida e impactante. Esta obra, sem dúvida que me conseguiu prender e mergulhar em pensamentos.

Como ponto preliminar, devo dizer, contrariamente ao que se possa pensar, que a tecnologia de ponta não é algo reservado a vídeos ou reels que vemos das modernas técnicas da robótica e computação, associadas a Silicon Valley ou às modernas cidades de Tóquio, Seul ou Singapura. O livro teve a subtileza de clarificar isso mesmo.

A história aparece centrada na figura do padre Eugénio, membro do clero sábio e responsável por uma pequena paróquia numa aldeia na Beira Alta. Intercala eficazmente entre o tradicional, a religião como centro cultural e espiritual dos meios mais remotos de Portugal, com as problemáticas da atualidade: a situação político económica portuguesa (desde logo a incapacidade de solução dos problemas do dia-a-dia das pessoas, que leva a uma afastamento generalizado e descrença do eleitorado aos atuais políticos), a situação dos jovens (dramas, alegrias e tristezas de quem está prestes a chegar à idade adulta e enfrentar os problemas como tal), as dificuldades financeiras e pessoais, principalmente de quem procura, em qualquer coisa, alguma forma de combater a solidão (seja no dinheiro, na fé ou no estatuto). Mas mais por mais, o livro acaba por ir ao ponto mais profundo e que acaba por unir todas estas temáticas: o papel da humanidade e da pessoa (quer individualmente considerada, quer como parte de uma comunidade), face a Deus, ao passado, à ciência, à política, e ao futuro.

O tema da religião é um assunto muito sensível, que tenho o cuidado de não tornar demasiado pessoal aqui no blog. Como defensor do respeito e da liberdade religiosa, não poderia ser de outra forma. Mas este livro, numa perspetiva própria e até suficientemente rica para chamar a atenção de crentes e não crentes, levou-me a chegar a conclusões interessantes que não resisto em partilhar: independentemente da posição que se possa ter sobre a religião e a existência/negação/possibilidade da existência de Deus, a questão milenar, que afetou sábios e escolares do ocidente ao oriente (desde os primórdios das religiões abraâmicas até às escolas budistas e confucionistas no extremo oriente), e que afetou culturas de todas as geografias mantem-se: o que é que nós somos? Quem nós somos na relação com o mundo? O que nós somos olhando para o infinito e as profundezas da condição humana?

A inteligência artificial, nesta fase da História, nesta fase do século XXI, nesta fase do desenvolvimento tecnológico, acabou por agitar estas questões milenares, adicionando uma nova componente a todo este debate. Estaremos nós no estado em que já temos conhecimento tal de nós próprios que podemos dar ao luxo de arriscar o passo derradeiro, que já demos, da nova tecnologia?

O livro, contudo, não se esgota em aspetos tecnológicos: considera os vários personagens em torno do padre Eugénio e frequentadores do café do Alberto, como pessoas diferentes da máquina científico-informática ao demonstrar que ainda temos muito para descobrir. Tanto no campo da neurociência como no campo da psicologia, o ser humano ainda não chegou ao ponto em que o conhecimento científico permite descobrir tudo sobre nós mesmos. Isso fica evidenciado na obra, sobretudo em torno de Adélia, a jovem universitária insólita e com atitude muito própria.

Sendo jurista, e por isso inepto para uma discussão mais técnica das questões lançadas, sinto que a questão da inteligência artificial pode ser colocada de moldes semelhantes a uma discussão que afetou a minha geração sobre a Internet. É difícil chegar a uma conclusão perentória sobre se este tipo de tecnologias é bom ou mau… Provavelmente estará numa zona cinzenta, sobre a qual muitas outras pessoas estarão mais aptas que eu para dissertar. Devo, contudo, dizer, que o que retiro do livro é que, não obstante as potencialidades e abertura de todo o novo mundo de possibilidades que o progresso científico possa levar, não devemos nós, cada um e como parte deste mundo, desistir de tentar aprofundar e melhorar a nós mesmos. Talvez isso seja um ideal que possa unir padres e cientistas ou ateus e crentes.

Indo agora a aspetos formais, o livro é escrito por um autor com claro conhecimento académico, embora não possamos considerar este romance como um livro universitário. Procura um equilíbrio entre o conhecimento do ensino superior com a necessidade de tornar o mesmo acessível ou, se se preferir, em democratizar o conhecimento, com as vantagens e desvantagens que dai possam surgir. Se é certo que pode ser, por vezes, um pouco mais pesado que o habitual e do que esperava, não posso dizer que seja o livro difícil, tendo já relido, com muito gosto, várias passagens. Por esse motivo, não posso deixar de recomendar a sua leitura.


terça-feira, 20 de agosto de 2024

Travessuras da Menina Má (2006), Mário Vargas Llosa – Crítica (Ana Luísa Gonçalves)


 

Prólogo: A beleza dos livros e algo que qualquer amante da literatura constata é o impacto que o livro tem no momento da nossa vida em que o estamos a ler. Isso é, aliás, uma grande variável da experiência literária. Outro aspeto é a transversalidade da nossa experiência humana, que podemos sentir de um livro de qualquer escritor de qualquer canto do mundo, até onde nós estamos. Peru, décadas passadas, Alvaiázere, Coimbra, Vila Real, todos nós podemo-nos unir neste magnifico mundo dos livros. É neste contexto que a Ana volta a um blog, com um artigo viciante e que nos deixa com vontade de ler mais textos dela! Sem mais demoras, o artigo (Luís Araújo)

 

Se há coisa que adoro são os livros, e após tantos anos sem entrar numa biblioteca municipal, voltei a fazê-lo com alegria por saber que ali teria um sítio onde sempre me sentiria acompanhada nesta nova etapa da vida. Assim, fiz o meu cartão de leitora e requisitei três livros (ambiciosa, já que o prazo de requisição é de duas semanas). Escusado será dizer que no prazo de duas semanas nem o livro que logo iniciei consegui acabar, quanto mais abrir os outros dois.

Porém, agora cheguei ao fim desse primeiro livro e é sobre ele que versará este artigo.

Já sabem, pelo título, que se trata de “Travessuras da Menina Má” de Mario Vargas Llosa. Comecei por escolher o autor devido ao Nobel que conquistou em 2010 e, de entre os títulos que a biblioteca oferecia, este foi o que mais me cativou.

Embora tenha demorado a “entrar” no livro, uma vez lá dentro confesso que foi com ansiedade que o acabei, sempre desejosa de saber mais dos encontros e desencontros entre a menina má e o menino que considerei para lá de menino bom. Tal como referi, demorei um pouco a deixar-me envolver pelo enredo, que começa no verão de 1950, no Peru e acompanha o desenrolar da história não só peruana, mas também mundial pelas décadas seguintes.

Este livro cativou-me, mas ainda não decidi se adorei ou não, dado que o acabei há poucos minutos. Retrata um amor assolapado, em que o protagonista está apaixonado “como um bezerro”, como o próprio refere. Ricardo apaixona-se intensamente e vive para esse amor, tudo fazendo por ele, mas será essa a forma certa de viver um amor? Não será mais importante, e antes de qualquer outro amor, o amor próprio? Ricardo deixa-se enlevar pela menina má, sucumbindo ao pouco (ou tanto?) que ela lhe oferece, de um modo que a dada altura já me irritava. Mas será sempre assim? Não tomará ele as rédeas da situação em algum momento? Terão de ler para descobrir!

A escrita de Llosa revela atenção aos detalhes e apesar de algumas palavras que acrescentei ao meu léxico conseguimos compreender facilmente esta história algo dramática.

Recomendo a leitura, mas vão preparados para se enervarem!

 

 


domingo, 17 de março de 2024

O Principezinho (versão teatro) - março de 2024 no Parque Mayer (Lisboa)

 



Vou começar este texto com um pequena história: tinha eu 15 anos, estava no início das férias de verão entre o 10º e o 11º ano, e saiu a sequela de um filme da Disney que tinha gostado muito: o Panda do Kung Fu. Por um lado, estava deserto para ver o filme, por outro, no meio daquelas ideias adolescentes e semi paranoia, tinha medo de ser reconhecido a ir ao cinema ver filmes da Disney com aquela idade.

Com o passar dos anos, felizmente, creio que as pessoas tendem a preocupar-se menos com o que os outros pensam e a ser um pouco mais fieis a elas mesmas, ainda que por vezes isso seja muito difícil. O que nos aconteceu ao crescer? Essa, é a pergunta que me fiz imensas vezes enquanto assistia à magnifica interpretação teatral do Principezinho. Num auditório cheio de famílias e crianças de colo, talvez ver lá um adulto solteiro de 28 anos sozinho, possa parecer um pouco estranho. Felizmente para mim, eu não tenho 15 anos, e tudo o que aquela peça me fez sentir merece um artigo no blog.

A peça é uma adaptação do magnifico conto de Antoine de Saint-Exupéry, na minha opinião bastante bem feita. Senti exatamente a mesma experiência que tive quando li o livro pela primeira vez, e honestamente, creio que é um livro que atinge mais um adulto que uma criança. O motivo é muito simples: à medida que o tempo passa, tendemos a esquecer as pequenas coisas que as crianças têm presente, e chega um momento da vida (umas vezes causado por um trauma, outros por necessidade, e muitos pela normal evolução no crescimento) em que sentimos que de um momento para o outro a nossa maneira de pensar mudou, quase como (se me é permitida a metáfora) a voz do consciente que fala connosco tenha mudado. O Principezinho foi uma obra/peça onde voltei a sentir a minha maneira de pensar de criança, e que, em larga medida, sinto saudades. Saint-Exupéry conseguiu fazer isso, algo que não é qualquer filme ou conteúdo infantil consegue, e foi algo que aqueles maravilhosos atores conseguiram transmitir.

Mas falemos também um pouco da história: afinal, o que é que perdemos quando crescemos? Diversas vezes a atriz que interpretava a personagem do Principezinho dizia, após cada planeta visitado que "os adultos são mesmo estranhos". E com razão: perdemos, ao longo do tempo, a criatividade, aquela capacidade de uma criança inventar uma brincadeira ou criar um mundo só com o poder da imaginação. Perdemos a sensibilidade de saber se algo é bonito, e focamos demasiado na etiqueta do preço. Perdemos a capacidade de apreciar as coisas simples da vida. Adquirimos a extrema vaidade, perdemos a racionalidade. E acima de tudo, tornamos os nossos sonhos e objetivos algo de quantificável, em vez de espiritual. Pensemos: uma criança quer ser exploradora? Como é que cresce e descobre que o objetivo dela a partir de agora seja ser, por exemplo, um técnico de contas? Ou um Administrador Financeiro? Para onde foi aquele espírito de curiosidade e aprendizagem?

Outro aspeto que gostei foi o fator criatividade. Com o tempo, ter ideias novas e tentar soluções novas parece cada vez mais difícil, isto porque estamos inseridos num mundo que prega a resignação, e não o espírito crítico. Isso soa familiar? Talvez, porque em larga medida. deixamos de questionar as coisas quando crescemos...

Hoje e sempre, o Principezinho faz-me recordar do que era ser novo, e sentir saudades desses tempos. Numa altura e numa fase da vida em que vivemos constantemente com medo e pessimismo sobre o futuro, o Principezinho faz-nos recordar da inocência da infância e do absurdo que muitas vezes nós os adultos vivemos. Como bem foi escrito e dito no teatro, "as coisas importantes não se vêm com os olhos, mas sentem-se com o coração". E é por isso, que quis hoje, voltar ao blog para falar deste teatro.