sábado, 5 de setembro de 2026

Mulheres (1978), de Charles Bukowski

 



Este ano, com o livro do cubano Pedro Juan Gutierrez “Trilogia Suja de Havana”, descobri e comecei a explorar um estilo literário designado pelos entendidos em literatura de Realismo Sujo, que desde já sublinho que não é para todos, dada a crueldade nua e linguagem sexualmente explícita/asneirenta. Não obstante acho este estilo particularmente interessante, pois tem o mérito de conceber personagens que, numa lógica tradicional de romance, são ao mesmo tempo vilões, heróis, agressores e vítimas. E nesse sentido, depois de ter lido outros autores do estilo como Phillip Roth e Michel Houellebecq, achei que podia ser interessante trazer este livro de Bukowski (primeiro que li do autor) ao blog.


“As pessoas costumam ser muito melhores nas cartas do que na realidade. Nesse sentindo, assemelham-se bastante aos poetas”


Este livro acompanha o dia-a-dia de um poeta de quase 60 anos (recordemos, nos anos 70 já era considerado velho) Henry “Hank” Chinaski, antigo funcionários do correios que largou esse ofício para se dedicar à escrita, tendo alcançado algum sucesso: visto de fora, uma pessoa que se autodescreve como feia e mal educada (a roçar o nojenta) parece ser bastante sucesso com as mulheres (maioritariamente leitoras), mais novas e bonitas, ao mesmo tempo que não prescinde do seu estilo agressivo ou, se se preferir, quase a roçar o labrego rude. Mas a contradição entre uma escrita cativante e um personagem egoísta, cruel e sedutor, acaba por criar um protagonista que, analisando todas as vertentes de que uma pessoa é (raiva, sofrimento, insegurança, desilusão com o mundo e apetites), mais e mais torna-se, pela sua complexidade, humana no fundo.


Ao longo de todo o livro vemos Hank, a quebrar o coração de várias mulheres (talvez procurando nisso inspiração para a sua escrita) ao mesmo tempo que com elas quebrava tabus, fantasias e fetiches de uma forma que se calhar muitos homens invejariam; por outro lado, vemos um homem profundamente dependente, quase sempre embriagado, e viciado não só em sexo como em apostas no hipódromo (corridas de cavalos), e incapaz de criar uma relação séria de qualquer tipo, seja pela amizade que quebra de forma absolutamente inacreditável com Bobby como pelo fracasso de criar algo com as duas mulheres que neste livro mais lhe cativam, Lydia e Sara (cada qual com a sua personalidade e neura), e que mesmo sabendo que lhes causa sofrimento com a sua vida e insaciável apetite por mulheres novas cativadas pelos seus poemas, Hank não consegue escapar, da dependência e da sua crueldade com que se conformou.


“Todas as mulheres são diferentes. Basicamente, parecem ser uma combinação do melhor e do pior: simultaneamente mágicas e terríveis. Mas ainda bem que existem.”


O que mais me cativou neste livro foi a quebra de mito do “rebelde irreverente” e a simpatia que, apesar de tudo, ainda conseguimos sentir por Hank: o que em teoria deveria ser um personagem invejado e aplaudido por outros homens (e, simultaneamente, desprezado por outras tantas mulheres) pela vida que leva, e sobretudo pelo prazer sexual com mulheres novas e bonitas, no fundo mostra-nos um personagem destruído e triste, cujo peso da realidade e do passado, que ainda que não detalhe muito, é algo que é visível que pense bastante, apenas suportando-o entrando num permanente ciclo de vícios auto-destrutivos, que lhe causa em simultâneo prazer e sofrimento.


“quando a tensão e a loucura eram eliminadas da minha vida quotidiana parecia que não restava grande coisa a que me agarrar”.


Dadas as características do livro, não diria que este seja um livro para todos os leitores (tal como qualquer livro deste estilo do Realismo Sujo), não porque a escrita seja difícil (não a é em Bukowski, pelo contrário, é bastante simples e acessível), mas talvez porque o palavreado e as descrições possam ser demasiado para um leitor mais sensível ou que use pouco este tipo de linguagem. No entanto, não posso deixar de recomendar, sendo que irei explorar outros livros do autor.