terça-feira, 30 de dezembro de 2025

“Náná”, de Émile Zola (1880) - Crítica

 



"Se vocês não fossem tão estupores, seriam tão amáveis com as suas mulheres como connosco; e se as suas mulheres não fossem tão prognósticas, dar-se-iam, para vos guardar, o trabalho que nós temos para os conquistas a vocês."


Recentemente, na companhia de um colega e amigo de trabalho, descobri um alfarrabista relativamente bem localizado em Lisboa , e como apreciador de livros, não resisti a sair de lá sem levar qualquer coisa. Por sugestão , um dos livros que levei foi este clássico de Émile Zola que passo agora a criticar.


O primeiro impacto que tive da sua escrita de Émile Zola foi um pouco a sensação de dejá vú em relação a Eça de Queiroz: o estilo de escrita, as descrições (em alguns momentos, se calhar em demasia), a maneira como retrata a alta sociedade do século XIX, e o sentido de humor, deixou-me convicto de que Eça se inspirou muito em Zola.


Indo ao livro propriamente dito, este acompanha Náná, que surge na obra como uma atriz de fraca qualidade mas que se destaca pela sua sensualidade. A primeira ideia que passa é algo que hoje em dia podemos associar, independentemente da nossa forma de ver e estar na vida: a beleza e o sexo vendem. E dessa forma Náná causou furor na sociedade parisiense, levando à loucura várias famílias que dela se aproximaram.


Com o evoluir da história, ficamos também com a sensação de que estamos também perante um livro profundamente psicológico, analisando a personagem principal, sobretudo no segundo “arco” em que entra numa relação de dependência e violência física com outro homem, fazendo pensar o porquê de uma pessoa se colocar e quase insistir em permanecer nessa situação, até que, chegamos a um terceiro arco da história que marca um ponto de viragem: vários homens , todos atraídos por Náná, num misto de obsessão e pouco amor próprio, entregam-se a uma paixão descontrolada, que Náná aproveita para deles extrair vantagens. Todos esses homens, de uma forma ou outra, proporcionam a Náná uma vida de excessiva luxúria e dependência, em prol um ideal de mulher que eles tinham da sua amante que, na realidade, nunca existiu, com consequências catastróficas para cada um deles . 

"Não havia amor onde não havia estima."


Na minha opinião, este livro destaca-se por explorar bem o psicológico do sexo e, de alguma forma, das relações/casamentos. Embora seja mais crítico das mulheres (representadas na personagem principal), não deixa de expor à crítica e ao ridículo os vários homens que se cruzam com Náná. De certa forma, este livro mostra-nos também um poucos as várias posições e vários cenários possíveis nas interações românticas/sexuais, usando a figura da Náná um pouco como exemplo de que em determinados contextos as pessoas podem-se tornar quase irreconhecíveis e agir ou, se se preferir, viver a vida de forma totalmente diferente. E numa era como a nossa em que as pessoas tendem a extremar ideia e preconceitos, este livro pode ser um bom ponto de início de um debate mais equilibrado, ao expor a irracionalidade de uma forma eventualmente um pouco mais racional.


E com este artigo termino o ano de 2025, que embora menos ativo aqui no blog, foi um ano muito positivo a nível pessoal, profissional e da minha escrita. Desejo a todos os meus leitores um excelente ano de 2026!


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