domingo, 20 de outubro de 2024

O Clérigo e o julgamento da espécie (2024), de Leopoldo Guimarães.

 

 

«Reflexões final de dia», já lá vai algum tempo desde que aqui escrevo.

Voltei aqui por dois motivos: no campo profissional muito recentemente vi-me confrontado com as possibilidades e usos das ferramentas de inteligência artificial, que prometem trazer grandes alterações para os vários setores do mercado, nomeadamente ao setor financeiro. Desiluda-se quem leu Orwell e sobretudo Huxley, quem achou que os cenários distópicos traçados pelos autores iriam demover o progresso científico. Está aqui, e está para ficar.

Voltei aqui, também porque no campo pessoal, apesar de tentar manter o meu ritmo de leituras, por sentir que este seria o momento de me aventurar num autor que não conhecia. Diversas vezes, em canais de cultura e entretenimento mais alternativo tenho descoberto conteúdo de imensa qualidade, que por vários motivos passa mais despercebido. Por isso achei que neste contexto pessoal não seria mal pensado dar uma chance de explorar algo novo. Procurei, por isso, um livro diferente, algo atual, de leitura fácil, rápida e impactante. Esta obra, sem dúvida que me conseguiu prender e mergulhar em pensamentos.

Como ponto preliminar, devo dizer, contrariamente ao que se possa pensar, que a tecnologia de ponta não é algo reservado a vídeos ou reels que vemos das modernas técnicas da robótica e computação, associadas a Silicon Valley ou às modernas cidades de Tóquio, Seul ou Singapura. O livro teve a subtileza de clarificar isso mesmo.

A história aparece centrada na figura do padre Eugénio, membro do clero sábio e responsável por uma pequena paróquia numa aldeia na Beira Alta. Intercala eficazmente entre o tradicional, a religião como centro cultural e espiritual dos meios mais remotos de Portugal, com as problemáticas da atualidade: a situação político económica portuguesa (desde logo a incapacidade de solução dos problemas do dia-a-dia das pessoas, que leva a uma afastamento generalizado e descrença do eleitorado aos atuais políticos), a situação dos jovens (dramas, alegrias e tristezas de quem está prestes a chegar à idade adulta e enfrentar os problemas como tal), as dificuldades financeiras e pessoais, principalmente de quem procura, em qualquer coisa, alguma forma de combater a solidão (seja no dinheiro, na fé ou no estatuto). Mas mais por mais, o livro acaba por ir ao ponto mais profundo e que acaba por unir todas estas temáticas: o papel da humanidade e da pessoa (quer individualmente considerada, quer como parte de uma comunidade), face a Deus, ao passado, à ciência, à política, e ao futuro.

O tema da religião é um assunto muito sensível, que tenho o cuidado de não tornar demasiado pessoal aqui no blog. Como defensor do respeito e da liberdade religiosa, não poderia ser de outra forma. Mas este livro, numa perspetiva própria e até suficientemente rica para chamar a atenção de crentes e não crentes, levou-me a chegar a conclusões interessantes que não resisto em partilhar: independentemente da posição que se possa ter sobre a religião e a existência/negação/possibilidade da existência de Deus, a questão milenar, que afetou sábios e escolares do ocidente ao oriente (desde os primórdios das religiões abraâmicas até às escolas budistas e confucionistas no extremo oriente), e que afetou culturas de todas as geografias mantem-se: o que é que nós somos? Quem nós somos na relação com o mundo? O que nós somos olhando para o infinito e as profundezas da condição humana?

A inteligência artificial, nesta fase da História, nesta fase do século XXI, nesta fase do desenvolvimento tecnológico, acabou por agitar estas questões milenares, adicionando uma nova componente a todo este debate. Estaremos nós no estado em que já temos conhecimento tal de nós próprios que podemos dar ao luxo de arriscar o passo derradeiro, que já demos, da nova tecnologia?

O livro, contudo, não se esgota em aspetos tecnológicos: considera os vários personagens em torno do padre Eugénio e frequentadores do café do Alberto, como pessoas diferentes da máquina científico-informática ao demonstrar que ainda temos muito para descobrir. Tanto no campo da neurociência como no campo da psicologia, o ser humano ainda não chegou ao ponto em que o conhecimento científico permite descobrir tudo sobre nós mesmos. Isso fica evidenciado na obra, sobretudo em torno de Adélia, a jovem universitária insólita e com atitude muito própria.

Sendo jurista, e por isso inepto para uma discussão mais técnica das questões lançadas, sinto que a questão da inteligência artificial pode ser colocada de moldes semelhantes a uma discussão que afetou a minha geração sobre a Internet. É difícil chegar a uma conclusão perentória sobre se este tipo de tecnologias é bom ou mau… Provavelmente estará numa zona cinzenta, sobre a qual muitas outras pessoas estarão mais aptas que eu para dissertar. Devo, contudo, dizer, que o que retiro do livro é que, não obstante as potencialidades e abertura de todo o novo mundo de possibilidades que o progresso científico possa levar, não devemos nós, cada um e como parte deste mundo, desistir de tentar aprofundar e melhorar a nós mesmos. Talvez isso seja um ideal que possa unir padres e cientistas ou ateus e crentes.

Indo agora a aspetos formais, o livro é escrito por um autor com claro conhecimento académico, embora não possamos considerar este romance como um livro universitário. Procura um equilíbrio entre o conhecimento do ensino superior com a necessidade de tornar o mesmo acessível ou, se se preferir, em democratizar o conhecimento, com as vantagens e desvantagens que dai possam surgir. Se é certo que pode ser, por vezes, um pouco mais pesado que o habitual e do que esperava, não posso dizer que seja o livro difícil, tendo já relido, com muito gosto, várias passagens. Por esse motivo, não posso deixar de recomendar a sua leitura.